Terapia política. Introspecção psicossocial. Análise simbólica.

26 março 2006

[203] "Reservo-me o domingo para a busca"

«Reservo-me o domingo para a busca
receosa e teimosa da alegria.
Meu coração devia ser alegre
como um pássaro novo,
meu coração devia ser alegre
como o vinho ou o fogo
No entanto, onde está a alegria?
onde estão as sementes da alegria?
onde vive a alegria? No entanto,
pergunto às coisas e às gentes
de domingo onde está a alegria.
Mesmo que a não encontre
destino-lhe o domingo,
este e outros domingos,
este sol e outros ventos,
este mar e outras ruas,
estas mãos e estes olhos.
Assim acho razão para não estar triste.»
(António Rebordão Navarro, "O Dia Dentro da Noite", Poemas: 1952 - 1982, Imprensa Nacional Casa da Moeda)

[202] Early Sunday evening: "Não cantes o meu nome em pleno dia"

«Não cantes o meu nome em pleno dia
não movas os seus ásperos motivos
sob a luz dolorosa sob o som
da alegria
Não movas o meu nome sob as tuas
mãos molhadas do choro doutros dias
não retenhas as sílabas caídas
do meu nome da tua boca extinta
Não cantes o meu nome a primavera
já o ameaça hoje principia
a vida do meu nome não o cantes
com a tua alegria»
(Gastão Cruz, "Os nomes", Imagem da Linguagem, Assírio & Alvim, 1974)

[201] Imbecilius inter pares

«Um dos temas mais imbecis que anda no ar é seguramente o da "paridade". O termo, por si só, já é irritante. (...) A maturidade cívica e política de um agente representativo não se mede nem pelo sexo nem pela "paridade".»
(João Gonçalves, Portugal dos Pequeninos, 26-3-2006)
*
Conceitos como "paridade" ou "igualdade (de género)" e afins só são possíveis nesta ditadura do "politicamente correcto", em que tudo e todos são tratados da mesma forma, ou seja, pelo nível discursivo e conceptual mais rasteiro, yet, mais apelativo, porque cria a ilusão de que todos somos iguais.
Nada mais falso! A ideia é amolecer e banalizar, para que "os porcos" triunfem...

22 março 2006

[200] Hoje deito-me eu no divã...

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves,
Dentro do coração,
assim falava a canção
que na América ouvi,
mas quem cantava chorou
ao ver o seu amigo partir,
mas quem ficou,
no pensamento voou,
o seu canto que o outro lembrou
E quem voou no pensamento ficou,
uma lembrança que o outro cantou.
Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito,
mesmo que o tempo e a distância digam não,
mesmo esquecendo a canção.
O que importa é ouvir a voz
que vem do coração.
Seja o que vier,
venha o que vier
Qualquer dia amigo eu volto
pra te encontrar
Qualquer dia amigo,
a gente vai se encontrar.
(Milton Nascimento, "Canção da América", de Fernando Brant e Milton Nascimento)
*
Dedico este poema, no primeiro aniversário do blogue, pelas razões que os próprios conhecem, ao Bruno, ao David, à Elizabeth, ao Filipe, à Isabel, ao Jó, à Jô, ao Joca, ao Jota, ao Madeira, à Maria, à Nella, ao Panfúncio, ao Pebble, ao Rick, ao Vasco, ao Vitinho, ao Zeca e a todas/os aqueles a quem, querendo-me bem, não tenho podido corresponder, por falta de tempo, de espaço, de sensibilidade ou de bom senso...

[199] Esta noite sinto-me assim:


Egon Schiele, "Autumn Trees", 1911 (Oil on canvas, 79.5 x 80 cm)

21 março 2006

[198] Early night: entre dois pingos de chuva...

«Devido ao previsível aumento de acções contra o Estado - Justiça: ministro admite contratar advogados para colmatar falta de magistrados»
(in Público online, 21-3-2006)
*
Então, mas a miraculosa "redução" das férias judiciais não iria resolver (quase) todos os problemas da Justiça? E os que sobrarem serão resolvidos por advogados? Mas onde fica a independência e amovibilidade dos magistrados?

[197] Literatura do mundo: o inferno é aqui

«No Estado do Vaticano vigora a lei de que nenhum criminoso pode ser executado sem antes receber a absolvição. Assim que Piachi soube da sua sentença, recusou obstinadamente a absolvição. Depois de terem recorrido a todos os meios de que a religião dispõe para mostrar a Piachi a ignomínia do acto que praticara, levaram-no para a forca na esperança de que, quando colocado diante da morte que o aguardava, o condenado finalmente se arrependesse. Um padre descreve-lhe com os pulmões da última trombeta todos os horrores do inferno onde a sua alma pecadora se preparava para mergulhar; um outro, com o corpo de Deus, o sagrado sacramento, na mão, glorificou a morada da paz eterna. "Queres tu fruir do benefício da redenção?", perguntaram-lhe ambos. "Queres receber a comunhão?" "Não", respondeu Piachi. "Porque não?" "Não quero ser salvo. Quero descer às vísceras mais profundas do Inferno. Quero voltar a encontrar Nicolo, porque ele não estará no Céu, e concluir aí a vingança que aqui apenas pude começar!" E assim subiu a escada e exigiu ao verdugo que fizesse o seu trabalho. A execução teve de ser interrompida e o infeliz, a quem a lei protegia, foi levado de volta para o cárcere. Fizeram-se mais três tentativas como esta nos três dias que se seguiram e todas com igual resultado. Quando ao terceiro dia o obrigaram mais uma vez a descer as escadas do patíbulo, Piachi ergueu as mãos exasperado e amaldiçoou a lei desumana que lhe vedava a passagem para o inferno.»
(Bernd Heinrich Wilhelm von Kleist, "O Órfão", tradução de José Maria Vieira Mendes)

20 março 2006

[196] De Bolonha a Lisboa, pela ponta de uma caneta

«Decreto-lei prevê reorganização dos estabelecimentos portugueses no ano lectivo de 2007/08 - primeiro diploma promulgado por Cavaco alinha Ensino Superior com Bolonha:

«O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, promulgou hoje o decreto-lei que alinha o Ensino Superior português com o Processo de Bolonha, aprovando o primeiro diploma desde que tomou posse, a 9 de Março.»
(in Público online, 20-3-2006)
*
Considero muito feliz o facto de ser precisamente este o primeiro diploma sujeito a promulgação pelo novo PR.
Pelo objecto: reestruturação dos currículos universitários, num país em que se exige (muito) mais conhecimento, formação e, já agora, discussão.
Pela ambição: trata-se da harmonização de sistemas de ensino com vista à livre circulação de licenciados, mestres e doutores.
Pelo simbolismo: a Educação foi uma das (poucas) pastas em que os governos de CS-1.º Ministro não terão estado à altura do bom balanço geral que é feito. Oxalá CS-Presidente contribua para a excelência desta área!

19 março 2006

[195] Gloriae mundi

Palavras para quê? Mais do que um clube, é uma cultura!

[194] Early evening: as escolhas de... Cavaco

Já começa o cerco ao PR. Corrijo, a Cavaco Silva, a quem muitos não perdoam a conquista do "palácio rosa".
Os primeiros ataques vieram de Jerónimo de Sousa, que não se cansa de repetir que ficou sem representante no Conselho de Estado. Mas ninguém é capaz de informar o senhor deputado que se trata disso mesmo, de conselheiros do PR, por si escolhidos? Por ventura, tivesse Jerónimo essa competência, escolheria representantes do CDS/PP e do PPD/PSD para seus conselheiros? Esses entram (ou deveriam entrar, se tudo funcionasse regularmente) na quota parlamentar. Muito gostaria eu de ver Paulo Portas, Paula Teixeira da Cruz, Jaime Nogueira Pinto, José Pacheco Pereira e outros a aconselharem Jerónimo ou Louçã!
Que me lembre, nunca vi nenhuma discussão tão acessa sobre as escolhas de um presidente da República para o Conselho de Estado ou para as suas duas Casas. Sempre houve uma espécie de cortesia protocolar e reverência institucional que impedia que se comentassem ou criticassem escolhas ou opções presidenciais, para além do estritamente necessário (ex. promulgação de diplomas-chave, orientações políticas em momentos críticos, etc.).
Acho que muita gente estava mal habituada à alternância, convencida de que há lugares vitalícios. E são eles os "democratas de Abril"...

[193] Humor do mundo: a lei geral e abstracta

(cartoon que circula na internet)

18 março 2006

[192] Pintura do mundo: consequências [191]


David Scheirer, "Free Number 5", 2004 (pencil, 8x6 polegadas)

[191] Early afternoon: citações do mundo

"The paramount relation between poetry and painting today, between modern man and modern art, is simply this: that in an age in which disbelief is so profoundly prevalent or, if not disbelief, indifference to questions of belief, poetry and painting, and the arts in general, are, in their measure, a compensation for what has been lost."
(Wallace Stevens, Angell Gallery)
*
E quando perdermos a capacidade de nos representarmos, teremos perdido (quase) tudo...

14 março 2006

[190] Carta-aberta ao Primeiro-Ministro

Senhor Primeiro-Ministro
Excelência
Escrevo na qualidade de médico das carreiras hospitalares e faço-o numa publicação profissional por julgar que o assunto é do interesse de todos os meus colegas.
Dirijo-me ao Estado, entidade abstracta, meu empregador, que V.ª Ex.ª, por força das últimas eleições, legítima e indiscutivelmente, representa. E, desde já, asseguro que não me move qualquer intuito político. Debalde poderá V.ª Ex.ª buscar qualquer filiação partidária, que não tenho, nunca tive e julgo nunca terei. Tampouco achará V.ª Ex.ª no meu curriculum atitudes de reivindicação, de reclamação ou de contestação, fora do mais estrito âmbito laboral. Esta carta é tão-somente um pedido de decência nas relações de trabalho com a minha entidade patronal, ditada pelo frustrar do que cuidava serem as mais legítimas expectativas.
Quando há mais de um quarto de século aceitei começar a trabalhar para o Estado, fi-lo na convicção de que era uma entidade recta e íntegra ou, como em linguagem vulgar se diz, uma pessoa de bem. Não o é, como ao longo dos anos vim constatando: o Estado é um gestor ruinoso do bem comum, que todos pagamos. As contas públicas não deixam margem para dúvidas. O Estado é caloteiro, paga pouco, tarde e mal mas, reciprocamente, é o mais temível dos credores. Basta ver como nega o princípio da compensação. O Estado é iníquo e corrupto. Confirme-se, a cada nova ronda de eleições, o baile de apaniguados a ocupar furiosamente os lugares públicos, sem concurso, sem justificação e, pior que tudo, sem competência. De tal situação, deu V.ª Ex.ª o mais despudorado exemplo.
O Estado denega a Justiça. Ao recusar criar condições para uma laboração rápida e exemplar dos tribunais, ao legislar diplomas dúbios, efémeros, se não contraditórios, perpetua-se o primado do acordo de circunstância ou do acto administrativo sobre o que devia ser Justiça, límpida e rigorosa.
Mas, ainda que tenha criado do Estado uma tão má imagem, nunca julguei que se pudesse chegar a violar princípios fundamentais do Direito, como o da não retroactividade das leis. Princípios que fazem parte dos direitos, liberdades e garantias universais de cujo reconhecimento Portugal é signatário. Ao que parece pouco convicto.
Declarou V.ª Ex.ª publicamente a suspensão da progressão nas carreiras e o aumento da idade da reforma. A menos que se trate de mais uma afirmação para não cumprir, a que V.ª Ex.ª nos vai habituando, tal representa, pura e simplesmente, legislar com efeitos retroactivos à data de início do contrato de trabalho - 26 anos, no meu caso. Ora, quando me vinculei à Função Pública, foi-me asseverado que teria o meu direito à reforma aos 60 anos e à progressão na carreira conforme prevista nos regulamentos aplicáveis. Os descontos a que fui sujeito ao longo destes anos a favor da segurança social não são mais um imposto, mas sim uma quantia que é minha e que confiei ao Estado para que a guardasse, investisse e finalmente provesse à minha reforma, segundo os termos acordados.
Nas recentes medidas económicas de excepção, sacrificou V.ª Ex.ª, uma vez mais, aqueles que pagam, sempre o fizeram e assim continuam. Quanto à oligarquia de riqueza ostensiva, na qual se inclui a classe política, continua arrogante, impune... e não tributada. No outro extremo, marginais que nunca trabalharam são encorajados a jamais o fazerem, mediante subsídios da Segurança Social, numa pedagogia leviana e suicidária, conquanto que eleitoralmente muito rentável.
Não sendo político não necessito de ser politicamente correcto. V.ª Ex.ª sabe, por demais, a quem maioritariamente são entregues os subsídios da Segurança Social: àqueles grupos étnicos que, justamente, perfazem o grosso da nossa população prisional. Assim, in limine, o subsídio é, na realidade, um suborno pago aos marginais para os manter controlados. Dada a maneira como V.ª Ex.ª trata as polícias e a magistratura faz todo o sentido. É mesmo muito inteligente e pragmático. Não sei é se será ético mas, olhando em redor, essa é uma palavra em desuso. Ora o certo é que a Segurança Social não vive das contribuições dos políticos - reformados ao fim de oito exaustivos anos de trabalho. Vive das nossas. E V.ª Ex.ª, ao alterar, de forma unilateral e, repito, retroactiva, o contrato que me ligava ao Estado, denunciou esse contrato. V.ª Ex.ª decerto concordará que, se não fosse o Estado, mas uma pessoa individual, a praticar estes actos, tal teria um nome pejorativo e uma sanção penal. Assim como se se tratasse de uma empresa ou qualquer outra entidade patronal haveria, indiscutivelmente, lugar a uma indemnização por quebra de contrato.
Pelo que, reportando-me aos princípios de equidade que seria suposto regerem o país, peço em meu nome, e dos médicos das carreiras públicas, igualdade de tratamento com os senhores deputados da nação, naquilo que V.ª Ex.ª muito bem definiu como «justas expectativas».
Respeitosamente.
Coimbra, 28 de Junho de 2005
a) Dr. Luís Canavarro*
*Assistente Hospitalar Graduado de Psiquiatria nos HUC
(carta que recebi, via correio electrónico, e que, embora atrasada, dispensa comentários.)

13 março 2006

[189] Late afternoon: folha de um diário intimista


Se eu puder partilhar o coração com alguém especial estarei a partilhar tudo o resto:
os meus livros, os meus silêncios, as minhas falas, o meu conhecimento, as minhas fraquezas, as minhas forças, os meus objectivos, o meu riso, as minhas lágrimas, a minha cama, a minha vida...

11 março 2006

[188] A caricatura da república

Jorge Sampaio, por Paula Rego (via "Expresso")


Foto, retrato ou caricatura?
Não entendo a intenção. Desmerece porque desmoraliza. O retrato de um Presidente tem que engrandecer o homem e o cargo! A presidência não é uma galeria de arte kitsch!
(Núncio/Portugal Real, Expresso, 11-3-2006)

07 março 2006

[187] O direito a (não) ser muçulmano

"GV: Porque é que tantos muçulmanos que vivem na Europa parecem ter desprezo pela Europa?
A.H.A.: Na América, é-se americano desde que se lá entra. Na Europa, a maioria dos imigrantes quer sempre regressar à sua terra natal. Em consequência, são sempre acolhidos como meros «visitantes» nas suas novas sociedades. Se uma pessoa não se defende sozinha na América, se não ganha o seu dinheiro, está literalmente morto e fracassará. Na Europa, o estado social distribuiu dinheiro generosamente, deixando os imigrantes num estado de espírito passivo. O seu «modo de ser diferente» é encorajado pelos sacerdotes islâmicos importados, que lhes dizem que não têm nada de comum com os infiéis.
GV: Qual é o próximo passo depois do multiculturalismo?
A.H.A.: Chegou a altura de tratarmos os imigrantes como cidadãos genuínos. O governo tem de agir mais claramente, por vezes com maior dureza, e tem de exigir mais. Veja os crimes de honra contra as mulheres turcas, que são um problema aqui na Holanda. Não apenas o homicida tem de ser punido, mas também toda a família, até a mulher que serve o chá enquanto o conselho de família se reúne para preparar este acto sangrento. Precisamos de enviar um sinal: não é permitido fazer estas coisas. Nos casos de excisão do clítoris precisamos também de um sistema de controlo. Na Holanda, temos esse sistema, mas ainda funciona numa base de voluntariado. Contudo, já é um começo.
GV: Porque é que as nossas sociedades europeias não são capazes de actuar mais vigorosamente contra injustiças óbvias e a opressão da mulher muçulmana?
A.H.A.: Quando vamos às comunidades turcas e falamos sobre os valores e códigos de comportamento que são incompatíveis com a liberdade e a democracia, muitas vezes ouço o argumento de que, na Europa, os judeus foram mortos e que isto é também o que está destinado para os muçulmanos - eliminá-los culturalmente. Estes são argumentos assassinos que paralisam qualquer europeu. Pela minha parte, na minha qualidade de nova mulher europeia, digo-lhes: não se deixem enganar! O que essas pessoas estão a dizer é simplesmente, «deixem-nos em paz e deixem-nos continuar a oprimir as nossas mulheres». Nenhuma sociedade civil nem nenhum governo têm de aceitar isto.
"
(GV é Andrea Seibel, sub-chefe de redacção do «Die Welt», e AHA é Ayaan Hirsi Ali, a deputada holandesa-somali que trabalhou com Theo van Gogh num filme sobre as mulheres muçulmanas. É um excerto de uma entrevista republicada no «Expresso». Os sublinhados são do blogger.)
*
Humildemente, sugerimos que Freitas do Amaral (re)leia esta entrevista. Pode ser que, finalmente, entenda...

[186] Early night: confissões de 12 mentes brilhantes

«Depois de ter vencido o Fascismo, o Nazismo e o Estalinismo, o mundo enfrenta agora uma nova ameaça totalitária global: o Islamismo.
Nós, escritores, jornalistas, intelectuais, vimos aqui apelar à resistência ao totalitarismo religioso, bem como à promoção da liberdade, da igualdade de oportunidades e dos valores laicos para todos.
Os eventos que ocorreram recentemente, depois da publicação das caricaturas de Maomé em jornais europeus, tornaram evidente a necessidade de um combate em prol destes valores universais. Trata-se de um confronto a travar no campo ideológico e que nunca poderá ser ganho pelas armas. Aquilo a que estamos presentemente a assistir não constitui um conflito de civilizações, nem um antagonismo Este-Oeste, mas antes uma luta global entre democratas e teocratas.
Como todos os totalitarismos, o Islamismo estabelece-se sobre medos e frustrações. Os pregadores do ódio apostam nesses sentimentos para formar batalhões destinados a impor um mundo de opressão e desigualdades. Contudo, nós afirmamos clara e firmemente: não existe nada, nem mesmo o desespero, que possa justificar a escolha do obscurantismo, do totalitarismo e do ódio. O Islamismo é uma ideologia reaccionária que aniquila a igualdade, a liberdade e a laicidade sempre que as encontra. O seu êxito só pode conduzir a um mundo de dominação: dominação do homem sobre a mulher, dominação dos islamistas sobre os demais. Para nos opormos a este processo, temos que assegurar direitos universais a todos os povos discriminados ou oprimidos.
Rejeitamos o «relativismo cultural», que consiste em aceitar que homens e mulheres de cultura muçulmana devem ser privados do direito à igualdade, à liberdade e aos valores laicos em nome do respeito pelas culturas e tradições.
Recusamo-nos a renunciar ao espírito crítico por receio da acusação de "islamofobia", um conceito infeliz que confunde a crítica do Islão enquanto religião com a estigmatização dos seus crentes.
Pugnamos pela universalidade da liberdade de expressão, para que o espírito crítico se possa exercer em todos os continentes, contra todos os abusos e todos os dogmas.
Apelamos a todos os democratas e espíritos livres de todos os países para que o nosso século venha a ser um tempo de Iluminismo e não de obscurantismo.»
Ayaan Hirsi Ali,
Chahla Chafiq,
Caroline Fourest,
Bernard-Henri Lévy,
Irshad Manji,
Mehdi Mozaffari,
Maryam Namazie,
Taslima Nasreen,
Salman Rushdie,
Antoine Sfeir,
Philippe Val,
Ibn Warraq.»
(Tradução de Luís Mateus -
Associação República e Laicidade)
*
A publicação deste Manifesto aqui no Divã é devida à oportuna iniciativa de Ricardo Alves, do Diário Ateísta, a quem o pedimos "emprestado" (os destaques a negro são nossos).
Humildemente sugerimos a Freitas do Amaral que o leia, já que provavelmente não leu a entrevista do Presidente da República eleito ao ABC [181].

06 março 2006

[185] A propósito do brutal assassinato da Gisberta

«Triste época! Mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.»
(Albert Einstein)
*
Não vamos fazer nada?

05 março 2006

[184] Late evening: Frida, a força da natureza!

"A coluna partida" (1944)
Frida Kahlo (1907-1954, México)
Sempre nos podemos impor, se nos deixarmos invadir pela força da vida! Uns pela música, outros pelo verbo, outros pelo tacto, outros pela pintura, uns pela escrita, outros pela ciência...
E todo o testemunho é encorajador!
(comentário do blogger a um post num blogue amigo)

[183] Poesia do mundo: Frei Agostinho da Cruz (1540-1619, Portugal)

«Ao triste estado

Passa por esse vale a Primavera,
As aves cantam, plantas enverdecem,
As flores pelo campo aparecem,
O mais alto do louro abraça a hera;


Abranda o mar; menor tributo espera
Dos rios, que mais brandamente descem;
Os dias mais fermosos amanhecem;
Não para mim, que sou quem dantes era.


Espanta-me o porvir, temo o passado;
A mágoa choro de um, de outro a lembrança,
Sem ter já que esperar, nem que perder.


Mal se pode mudar tão triste estado;
Pois para bem não pode haver mudança,
E para maior mal não pode ser

[182] Literatura do mundo: O Morgardo de Fraião

«- Então vai-se embora, primo? - exprimiu o capitão-mor em voz mista de espanto e reprovação.
- Vou, pois então! Quer que me deixe roubar? Não, de mim não zombam. O abade e o Guerrilhas vão ver uma fona...
- Mas estava ainda há pouco tão doente...
- Não sei. Agora sinto-me rijo. De resto só quero forças até chegar a Valença, e uma moratória de dias... mais dois ou três dias de vida... S. Bento da Porta Aberta, meu advogado nas aflições, há-de-me ouvir e interceder por mim junto do Altíssimo - e, dizendo isto, calçava, sentado na cama, as botas de cano alto, levantando a perna à altura da cabeça do capitão-mor, acaçapado no tamborete.
- E o nosso rei? Não há-de assistir à abertura das Cortes? - interrogou o capitão-mor de Barcelos com certa veemência e tom de acritude.
- Em primeiro lugar estou eu. O príncipe - sabe que mais, primo? - que vá para o Diabo!»

(In RIBEIRO, Aquilino. Casa do escorpião: Novelas, Lisboa, Bertrand: 1985, pp. 11-69.)

[181] Late afternoon: a matter of beliefs!

«- ¿En qué cree que Occidente puede y debe hacer concesiones?
- Es difícil decir dónde se debe hacer concesiones, pero sí sé dónde no se puede, como en los principios fundamentales de la democracia. No puede ponerse en causa nuestra forma de vivir, en la que existen libertades que constituyen la esencia de la democracia.»
(Cavaco Silva ao jornal espanhol ABC, na primeira entrevista como Presidente da República eleito)
*
Afinal, o "razoável economista" tem também convicções políticas. E Freitas do Amaral deveria ler este trecho. Em poucas palavras, diz-se muito...

04 março 2006

[180] Late night: pintura do mundo


"Aristóteles contemplando o busto de Homero"
(Rembrandt, 1653)
Oil on canvas, 143.5 x 136.5 cm; Metropolitan Museum of Art, N. Iorque

[179] A Amizade, essa chama eterna...

"Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Nem percebem
o amor que lhes devoto e a necessidade que tenho deles.
Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido
todos meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos
e o quanto minha vida depende de suas existências.
Alguns deles não procuro. Basta-me saber que existem. Essa condição
me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas como não os procuro
com assiduidade, não lhes posso dizer o quanto gosto deles.
E eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crónica e não sabem
que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que saiba e sinta que os adoro, embora não o declare
e não os procure. E, às vezes, quando os procuro,
noto que não têm noção de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí
e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Por isso é que, sem que eles saibam, rezo pela vida deles. E me envergonho porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem-estar.
É, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo
e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima
por não estarem junto de mim, compartilhando aquele prazer...
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida
não me permite ter sempre ao meu lado,
morando comigo, andando comigo, falando comigo, todos os meus amigos.
A gente não faz amigos, reconhece-os!»
("Amigos", Vinícius de Moraes)
*
Texto lindíssimo! Traduz, com fidelidade, o que sinto pelos meus amigos...
Eles são o meu mundo e a sua ausência ou apatia entristece-me profundamente e desestrutura-me. Eles são o meu sol, o meu sal e o meu sul...

03 março 2006

[178] Early afternoon: some thoughts

In a world where you can be anything, be yourself!
True friendship comes when silence between two people is comfortable.
Don't take yourself too seriously 'cos others sure won't!
Dream. Dream the world as you want it and start working to make it so.
*
Dedico este post a todos os que tocaram ou tocarão o meu coração e àqueles em cujo coração tive a felicidade de tocar.

[177] Os estereótipos são perenes

Não deixem de clicar neste endereço e ver como há coisas que nenhuma pós-modernidade consegue alterar:

[176] A pós-modernidade na linguagem

Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar "afro-americanos" aos pretos, com vista a acabar com as raças por via gramatical, isto tem sido um fartote pegado!
As criadas dos anos 70 passaram a "empregadas" e preparam-se agora para receber a menção de "auxiliares domésticas". De igual modo, extinguiram-se nas escolas os "contínuos"; passaram todos a "auxiliares de acção educativa". Do mesmo modo, e para felicidade dos "encarregados de educação", aboliu-se o aluno cábula; tais estudantes serão, quando muito, "crianças com necessidades pedagógicas". O analfabetismo desapareceu, cedendo o lugar à "iliteracia". Os gangues étnicos são "grupos de jovens". Os vendedores de medicamentos tratam-se por "delegados de propaganda médica" e os caixeiros-viajantes por "técnicos de vendas". As fábricas, essas, vistas de dentro são "unidades produtivas" e vistas de fora são "centros de decisão nacionais". Desapareceram dos combóios as classes 1.ª e 2.ª, para não ferir a susceptibilidade social das massas, mas continuam a cobrar-se preços distintos nas classes "Conforto" e "Turística".
A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: «Sou mãe solteira...»; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da melodia para: «Tenho uma família monoparental»... O abortamento eufemizou-se em "interrupção voluntária da gravidez" e já se não vêem por aí aos pinotes crianças irrequietas e «terroristas»; diz-se modernamente que têm um "comportamento disfuncional hiperactivo".
O "politicamente correcto" marimba-se para as regras gramaticais e, para compor o ramalhete, as gentes cultas da praça dão-se a "implementações", "posturas pró-activas", "políticas fracturantes" e outras impropriedades da linguagem.
À margem da revolução semântica ficaram as putas. Essas moças são ainda agora quem melhor cultiva a língua. Da porta do prostíbulo para dentro, não há "politicamente correcto" que lhes dobre a língua!
E assim vagueamos, perdidos entre a «correcção política» e o novo-riquismo linguístico.
(adaptado por Núncio de um texto anónimo que circula pela internet)

01 março 2006

[175] A pós-modernidade é um conceito próprio?

Apropriando-me, cortês mas assumidamente, de uma referência de JG no Portugal dos Pequeninos (em post de hoje), reproduzo aqui a interessantíssima lista de Norman Mailer que, segundo o mesmo, distinguirá a modernidade da pós-modernidade (embora, pessoalmente, defenda que já saímos mesmo do pós-modernismo há algum tempo). A negro, os pares que eu acho mais marcantes (decidi reproduzir a lista no original tal como resulta do sítio da Internet cujo link está associado ao título deste post; poderei, a pedido, ajudar a resolver quaisquer dificuldades de tradução):

MODERN / POSTMODERN
steel / plastic
Picasso / Warhol
Pullman & Coach / First Class & Economy
romance / narcissism
pot roast / vegan
FDR / GWB
Hitler / Hussein
Churchill / Blair
Zionism / Israel
USSR / People's Republic of China
consumption / cancer
Gone With the Wind / The DaVinci Code
drought / flood
blizzard / global warming
steak / salad
beer / lite beer
dessert / No-Cal
tycoons / CEOs
typewriters / PCs
Off-Broadway / Off-Off-Broadway
bebop / rap
shoes / sneakers
library / Internet
epistles / blogs
Gallo / Pinot Noir
bourbon / single malt
the Depression / the 1990s
corner stores / malls
Sinatra / Eminem
farming / agribusiness
slums / projects
highways / superhighways
Sears, Roebuck / Wal-Mart
antiseptics / antibiotics
heart attacks / bypasses
concentration / fragmentation
war / terrorism


Sem prejuízo de voltar ao tema, que me parece fascinante, à vous la parole! Dou o tiro de partida: a lista é marcadamente americana, embora com vários elementos "universais" ou globais, como correntemente se prefere dizer... Agora, comentem!

28 fevereiro 2006

[174] Late afternoon: citações poéticas

« "Beauty is truth, truth beauty" - that is all
Ye know on earth, and all ye need to know.»
(John Keats, Ode on a Grecian Urn, 1820)

25 fevereiro 2006

[173] Citações nocturnas

"Os maus só conhecem cúmplices; os pervertidos têm companheiros de deboche; os ambiciosos, associados; os políticos arrebanham os facciosos; os homens vulgares e ociosos têm ligações apenas; os príncipes, cortesãos; mas os homens virtuosos, e só eles, têm amigos..." (Voltaire)

[172] Early evening: pintura do mundo


"Violência", Alejandro Obregón, Colômbia, 1962

24 fevereiro 2006

[171] Como diria o outro, liberdade ou licenciosidade?

O pai de um dos jovens [três rapazes, entre os 16 e os 18 anos] de Barcelona [que, em Dezembro de 2005, regaram com gasolina e queimaram uma sem-abrigo] disse: "São miúdos modernos, de uma geração muito permissiva, que tiveram tudo. Talvez não tenhamos sido bons pais."
(in DN, 24-2-2006)
*
Esse é o grande problema do pós-Guerra: o desmantelamento dos regimes autoritários e a consolidação das democracias; a apologia das liberdades em detrimento da responsabilidade individual e colectiva (o liberalismo económico, financeiro e político que gerou profunda desregulação e exclusão sociais); o crescimento económico galopante (o maior de toda a história), assente no consumo; o florescimento das ciências sociais (em especial a psicologia e a pedagogia), tudo isto (embora aparentemente sem relação) teve consequências devastadoras na educação e formação dos descendentes daquela geração.
Quem não teve nada (ou quem ficou sem nada) quis dar tudo aos filhos e netos... Mas "tudo" é o quê? Liberdade? Dinheiro? Jogos? Carros? Cigarros? Sexo? Telemóveis? Da herança parece não fazer parte tolerância, urbanidade, cultura, livros, poesia, tertúlias, passeios, solidariedade, amor...

23 fevereiro 2006

[170] A propósito do "Festim Nu" de JG

O pavor de punir, porque pode traumatizar, está a deixar manietados pais, educadores e, pelos vistos, legislador...
Não sei como é que muitos de nós, incluindo o blogger e o signatário, chegaram aos 30, 40 ou 50 anos vivos e lúcidos! À luz destas teorias pedopsicológicas, já deveríamos estar loucos ou desgovernados...
(comentário deste blogger deixado no Portugal dos Pequeninos, em 23-2-2006)

22 fevereiro 2006

[169] Salpicos de um blogue refrescante

«E obriguei-me a recordar os momentos de amizade pura e de completa entrega sem sombras de sexo que já vivi. E senti que, de facto, não há maior entrega. Que o sexo pode ser uma prisão, uma arma, uma forma de subjugação. Um vício…»
(Sand Swimming: 13-2-2006)
«Gostámos mais do que aquilo que teríamos imaginado isoladamente.
Entre o cheiro do café
A solvência do açúcar
As palavras suspensas há tanto, tanto tempo.
Agora tudo se reunia
Agora tudo se reacendia
E as palavras desciam, volteavam, entrelaçavam-se.
E o pano cru
Abandonado há tanto
Retomava-se na trama como se o fio tivesse sido acabado de deixar
Para respirar
E voltar a tecer-se o encontro das palavras.
E o vento acompanhou o caminhar pelos espaços do estio
Apesar do frio.»
(Sand Swimming: 15-1-2006)

[168] Esta noite, sinto-me assim:


Gloriosa noite europeia!

18 fevereiro 2006

[167] Contagem decrescente...

Miguel, "Cavaco, Presidente eleito" (CCB, 22-1-2006)

Discreta, mas ponderadamente, lá vai, desde o Palácio de Queluz, formando a sua equipa e preparando o magistério. Pelo andar da carruagem, a "cooperação", mais do que estratégica, terá que ser esforçada... a começar pelos Negócios Estrangeiros, área onde o PR tem uma intervenção mais nítida e que está entregue, até ver, a um irreconhecível Freitas do Amaral!

[166] Late evening: a vida como ela é... sem flores


Já tem mais de um ano esta foto magnífica, mas recordo-a aqui, pela actualidade e contextualidade. O autor é Evandro Monteiro, brasileiro, e a foto é "Zoinho, menino de rua, enfrenta polícias" (São Paulo, 2004).

13 fevereiro 2006

[165] Late evening: Azul


"O meu filho fez-me agora um desenho no braço com aquelas canetas de bico grosso azul céu. Fez cinco riscos. A história não viria ao caso se eu tivesse algo de interessante para dizer. Como não tenho, vou só escrever que estes riscos fazem lembrar-me as marcas que o meu amigo tem nos braços. É claro que as deles são mais fundas e mais azuis. E estão nas veias. Não saem com álcool, nem com nada. O que até não é mau. Porque me lembram que ele viveu muitos anos no Casal Ventoso. Que esteve preso. Que ficou seropositivo por causa de uma agulha infectada e que fugiu à morte à custa de si mesmo. As linhas no meu braço lembram-me que o meu amigo tem uma empresa que factura milhares de contos por ano. As linhas lembram-me que o meu amigo é um pai extremoso. As linhas lembram-me que o meu amigo é um grande amigo. As linhas lembram-me que o nome do meu amigo devia sempre ser escrito com uma daquelas canetas de bico grosso azul céu."
(Francisco Trigo de Abreu, Mau Tempo no Canil, 13-2-2006)
*
Azul mar, azul céu, azul vida! Belíssimo post. Comovente. Parabéns, FTA!

12 fevereiro 2006

[164] Contrastes neocapitalistas.

"São Paulo, a megalópole do luxo kitsch:
"Ignorando a miséria, a capital económica do Brasil é o Quartel-General dos abastados, com os seus bares, os seus hotéis luxuosos, as suas boutiques com heliporto...
"(...) Com 35% do PIB brasileiro concentrado no Estado de São Paulo, a megalópole é mesmo uma capital do luxo, com as suas «Fashion Weeks» (semanas da moda), os seus parques semeados de obras de Oscar Niemeyer, o arquiteto do concreto curvado, e as suas bienais de arte contemporânea. A megalópole passou de 30.000 habitantes em 1870 para 18 milhões em 2005, tornando-se assim a terceira maior cidade do mundo, a mais importante do hemisfério sul. Fundada em 1554 por um pequeno grupo de jesuítas, ela possui hoje 2.578 arranha-céus.
"(...) Uma cidade extremada onde o dinheiro jorra aos borbotões. (...) Paraísos para os passeadores, [o]s antigos "jardins" são uma zona protegida do grande risco - seguranças (...) de terno preto ou azul escuro conversam em frente às lojas e aos restaurantes com os colegas motoristas e guarda-costas. Situado no coração desta cidade disparatada, este triângulo de ouro protege os afortunados da economia mundial e a clientela estrangeira. Boutiques de luxo, restaurantes de ementa "nouvelle cuisine" (...). Por exemplo, no Clube do Chocolate, na Rua Haddock Lobo, sem dúvida uma das mais caras do (...) imobiliário paulista, junto à Rua Oscar Freire, o equivalente tropical de uma Rua Saint-Honoré, em Paris.
"Em certos casos, ocorre que a riqueza não se sente à vontade num bairro por demais apertado como o dos Jardins e resolve mudar-se para bairros modernos e promissores. Uma prova desta tendência é a loja Daslu, com os seus 20.000 m2 de luxo absoluto, um "shopping-bunker" que migrou em 2005 do bairro de Vila Nova da Conceição para o vasto estaleiro do futuro núcleo de urbanismo futurista próximo da marginal Pinheiros, uma espécie de auto-estrada urbana que acompanha o rio, ultra poluído, do mesmo nome. Uma espécie de quadrado com colunas inspiradas na Grécia antiga que custou 50 milhões de dólares (...), a Daslu acolhe seus clientes privilegiados com fausto. Condutores trajando fraque e boné branco e preto, simpáticas e prestáveis empregadas de avental bordado, vendedoras "manequins" que vestem a marca da casa. Pode encontrar-se de tudo na Daslu: malas Vuitton, calças Dolce & Gabbana, sapatos Gucci, pulôveres Chanel, tudo importado. Perfumes, carros (Mini Cooper e Maserati), aparelhos de televisão de écran plasma, modelos de iates. Pode também chegar-se de helicóptero pelo telhado e refrescar-se no bar de champanhe projectado por David Collins, o arquitecto predilecto de Madonna.
"Do outro lado do rio Pinheiros, fica a favela do Coliseu, pobre entre as mais pobres, onde o rendimento mensal médio de um habitante não atinge sequer o preço do estacionamento [da Daslu]: 30 reais [cerca de 10 euros], uma tarifa que condiz com o padrão de riqueza da loja."
(Véronique Mortaigne, enviada especial a São Paulo, Le Monde)
*
E andamos nós a discutir os limites da liberdade de expressão, quando milhões de pessoas no mundo nem sequer conseguem exprimir uma palavra, de tanta fome que passam ou de tanta tareia que apanham...
(artigo reescrito em Português de Portugal, a partir do texto original que me foi endereçado, gentilmente, por correio electrónico, por um amigo brasileiro)

[163] The sound of silence

Estou a ouvir Simon & Garfunkel.
Que bom que seria que tantos, em tantos lugares, em tantas ocasiões, ouvissem o som do silêncio...

11 fevereiro 2006

[162] Late evening: pintura do mundo



Tiempos de silencio (luchadores por la paz y la guerra), S. Carbonell (http://www.uaq.mx/servicios/cultural/gvirtual/santiago/galeria_santiago.html)

[161] Cântico Negro

"Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por aí!"
(José Régio, Ed. Quasi, 1.ª ed., Famalicão: 2005)

[160] A Europa envergonhada...

O mesmo Governo do mesmo país que, em nome da separação do Estado e da Igreja, do laicismo republicano e da liberdade de culto, ordena a retirada de crucifixos das escolas públicas, através da sua Ministra da Educação, emite um comunicado, assinado pelo seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, onde se apela ao respeito pelos símbolos do Islamismo e à manifestação contida da liberdade de expressão...
Mas, quando se visam outros símbolos (lembram-se do preservativo no nariz de S.S.?), tais manifestações são o expoente da civilização ocidental!
Aqui, como noutros campos, vinga a cobardia política e o relativismo moral. Depois, não se queixem que a História se repete!

08 fevereiro 2006

[159] Faith no more?


"Desagrada-me a forma gratuita como, por vezes, é ridicularizada a fé e ainda me desagrada mais a forma como isso, entre nós, se banalizou."
(Constança Cunha e Sá, O Espectro, 5-2-2006)

[158] Novos tempos, velhos erros...

"Não estamos muito longe do totalitarismo descrito por Hannah Arendt - um totalitarismo não político, mas não menos destruidor, a longo prazo.
"Em Portugal vive-se numa situação particular, de transição das sociedades «disciplinares» para as de controlo, cada vez mais apanhada pela rede geral da globalização."
(José Gil, Portugal Hoje - O Medo de Existir, Relógio de Água, Lisboa:2005)

06 fevereiro 2006

[157] Palavras leva-as o vento...

«José Sócrates mostrou uma vez mais que foi infeliz na escolha - tal como já tinha acontecido com muitas das que fez nas autárquicas - e desastrado na gestão do processo. Voltou com a palavra atrás e acabou penalizado por essa atitude. A palavra não pode ser uma coisa vã ou mutável, e quando a damos temos de mantê-la, mesmo que isso nos prejudique. É a isso que se chama palavra de honra, a que nunca se muda quando se dá, custe o que custar. »
(António Esteves, Entre Vistas, 25-1-2006)

05 fevereiro 2006

[156] Luz dominical: "O sol nas noites e o luar nos dias"

"De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem."
(Natália Correia)

[155] Early afternoon: lembranças


Para não nos esquecermos da alegria que cerca de 14 milhões de adeptos, em todo o mundo, tiveram em Maio passado... Não é uma semana desastrada que vai apagar tal lembrança!

[154] Domingo de manhã: a emoção de um encontro virtual

«a formiga disse à cigarra que o frio haveria de passar. a cigarra, esfaimada, não podia cantar nem imaginar que coisa teria na cabeça durante o verão já tão longínquo. a formiga, sorrindo, convidou-a a entrar na sua toca e deu-lhe de comer. depois, recebeu da cigarra a mais infinita amizade e as melhores aulas de canto e dança. juntas, sentiram-se perfeitas e nada mais lhes haveria de faltar a vida inteira»
(valter hugo mãe, casadeosso)
*
O mundo não está perdido! Ainda há formiguinhas e cigarras suficientes para ensolarar esta vida... Obrigado, valter.

03 fevereiro 2006

[153] Um líder para Portugal. Ou dois?

« (...) o papel da dupla liderança na eficácia das organizações. O conceito tem sido referido sobretudo a propósito da necessidade de as organizações serem conduzidas por duas personalidades: uma exercendo o papel de líder e outra o de gestor. A tese não é consensual, mas os argumentos são plausíveis. Para a sua compreensão, (...) pontos a destacar:

- A liderança e a gestão são processos distintos. A liderança é mais visionária, orientada para a mudança, emocional, criativa, inspiradora, inovadora, intuitiva. A gestão é mais conservadora, racional, analítica, "calculista", eficiente, imitadora, orientada para a gestão das infra-estruturas organizacionais e para a implementação da visão articulada pelo líder.

- Dois argumentos podem sustentar a tese da incompatibilidade. Um considera que a liderança e a gestão requerem características de personalidade distintas (ou se é líder ou se é gestor!). Portanto, há que dispor de um líder e de um gestor, cada um com o seu perfil. O outro argumento aduz que os dois papéis não podem ser exercidos pela mesma pessoa simultaneamente, sob pena de os colaboradores reagirem negativamente a alguém que actua de modo "duplo" e pratica o "compromisso maquiavélico".
«(...) De qualquer modo, perante o debate, duas afirmações podem ser feitas com bastante segurança. Primeira: a gestão é mais relevante nas base da hierarquia e em momentos de estabilidade. A liderança é mais pertinente para o topo da hierarquia e tempos turbulentos. Segunda: as organizações necessitam de possuir e promover ambas as competências. Com boa gestão, mas sem liderança, a organização terá presente, mas incorre no risco de não alcançar o futuro (ou de "morrer podre de rica"). Com liderança visionária, mas sem boa gestão, a organização poderá vislumbrar um excelente futuro - mas não conseguirá alcançá-lo.
«Finalmente, duas perguntas provocatórias: (1) será por estas razões que se argumenta que os eleitores não gostam de colocar todos os "ovos no mesmo cesto"?; (2) será Portugal mais bem gerido quando a Presidência e o Executivo asseguram devidamente as funções de liderança e de gestão?»
(Arménio Rego, DN, 3-2-2006)

28 janeiro 2006

[152] Y viva España, por supuesto!

«(...) Os esforços concertados [para desenhar uma solução para a EDP] de Manuel Pinho, deputado socialista, de Manuel Pinho, ministro socialista da Economia, e de Manuel Pinho, ex-funcionário do Espírito Santo; de António Mexia, presidente indigitado da EDP, de António Mexia, ex-ministro social-democrata da Economia, de António Mexia, ex-presidente da Galp, de António Mexia, ex-presidente da Transgás, e de António Mexia, ex-funcionário do Espírito Santo; de Joaquim Pina Moura, presidente da Iberdrola, de Joaquim Pina Moura, deputado socialista, de Joaquim Pina Moura, ex-ministro socialista, e de Joaquim Pina Moura, ex-funcionário do BCP, deram frutos neste início de ano novo, em cima da grande festa da Epifania!
«(...) A conquista económica de Portugal pela Espanha tem sido desejada pelos portugueses e apoiada pelos governos. (...) O agrado é generalizado. As vantagens para o consumidor indiscutíveis. É provável, como já se viu com o Corte Inglês, que os costumes portugueses, graças à influência espanhola, mudem mais rapidamente. A longo prazo? Não sabemos. O que acontecerá com as liberdades e a independência? Não sabemos. Para já, sabemos que eles são melhores e mais ricos. Porque trabalham para isso e defendem os seus interesses. E nós não. Nem uma coisa nem outra.»
(António Barreto, O exemplo vem de cima, Público, 8-1-2006)

24 janeiro 2006

[151] Late afternoon: (des)ilusões

«Há quem, à esquerda, exulte com a vitória à tangente de Cavaco. Pura ilusão. Essa pode ter sido a única bênção destas eleições para esse campo político - uma segunda volta, com os candidatos disponíveis, teria originado um autêntico fratricídio
(Editorial, DN, 24-1-2006)

22 janeiro 2006

[150] Um tempo novo com um rosto novo

"Com certeza que as coisas têm que acabar, é bom que haja rotação e não nos eternizemos nestas coisas. A democracia é isso mesmo. Com certeza que o país ganha com isso, com caras novas."
(Jorge Sampaio, 22-1-2006)
*
É isso que também espero. Portugal precisa de nós.

21 janeiro 2006

[149] Curiosidades ideológicas

«Sócrates não tem medo de Cavaco em Belém. Há uma convergência de estilo e de objectivos entre os dois. Mesmo a nível ideológico as diferenças não são muitas. Talvez Sócrates esteja mais perto da social-democracia reformista de Cavaco Silva do que do socialismo de Manuel Alegre».
(Paulo Lopes Marcelo, DE, 20-1-2006)

20 janeiro 2006

[148] Early night: citações transcendentes

«Há um Portugal triplo. Um nasceu com o próprio país: é esta alma da própria terra [...] que encontrará no fundo de cada português. O terceiro Portugal, que encontrareis à superfície dos portugueses visíveis, é aquele que [...] formou esta parte do espírito do português moderno que está em contacto com a aparência do mundo. Esta terceira alma portuguesa é apenas um reflexo mal compreendido do estrangeiro; [...] o Portugal essencial - a Grande Alma portuguesa, em toda a sua profundidade aventurosa e trágica - foi-lhe velada. [...] Há uma segunda alma portuguesa nascida [...] com o começo da nossa segunda dinastia e retirada da superfície da acção com o fim - o fim trágico e divino - desta dinastia. Depois da batalha de Alcácer Quibir [...], a alma portuguesa, que procurará em vão, tornou-se subterrânea. A partir daí, tornou-se verdadeira [...] e veio-nos de mistérios antigos e de sonhos antigos [...]. Ela chegará brevemente ao segundo dia da sua manifestação, e ver-se-á então que o que foi aventura material [...] tornar-se-á uma aventura formidável, supra-religosa (...)».
(Pedro Teixeira da Mota, Tradução da carta de Pessoa ao Conde de Keyserling, in Fernando Pessoa - a Grande Alma Portuguesa, Lisboa, Ed. Manuel Lencastre, 1988)

19 janeiro 2006

[147] Máscaras e fantasmas

Considero que Garcia Pereira e Cavaco Silva são os únicos verdadeiros candidatos a estas eleições presidenciais.
Reparem bem:
Mário Soares candidata-se contra Cavaco Silva.
Manuel Alegre candidata-se contra Mário Soares.
Francisco Louçã candidata-se contra Cavaco Silva e Jerónimo de Sousa.
Jerónimo de Sousa candidata-se contra Cavaco Silva, Francisco Louçã e Manuel Alegre.
De facto, as únicas verdadeiras candidaturas, pessoais, voluntárias, convictas (gostemos ou não dos seus protagonistas) são as de Cavaco Silva e Garcia Pereira.
P.S. Eu não estou contra nenhum, apenas a favor de Portugal. E Portugal precisa de nós.

16 janeiro 2006

[146] Aux electeurs, la parole!

«Porque [o Presidente da República] tem legitimidade soberana própria, pode chamar à pedra os outros poderes e exigir-lhes eficácia e integridade. Porque é o presidente de todos os portugueses, pode ter um papel decisivo na afirmação de valores, na pedagogia da actuação, na cultura de exigência de que Portugal tanto precisa. Um bom governo encontrará num bom presidente o seu maior aliado. Um bom juiz saberá que um bom presidente o apoiará quando for preciso demonstrar verdadeira independência. E um bom empresário voltará talvez a acreditar que vale a pena apostar no seu país, se um bom presidente fizer a apologia da racionalidade económica, da meritocracia, e da sã concorrência.»
(António Borges, 16-1-2006)

14 janeiro 2006

[145] Não há donos da Pátria nem da Liberdade!

«O nacionalismo deve mais à esquerda do que à direita. A ideia política de Pátria era alheia ao regime anterior à Revolução Francesa. Até aí, predominavam as fidelidades étnicas, religiosas e pessoais (ao rei, por exemplo). Contra o absolutismo real e o poder feudal da nobreza e do clero, a nação de cidadãos nasceu após 1789. Não por acaso, ligada ao serviço militar obrigatório (contra cuja abolição em Portugal votou M. Alegre).
«A partir de Rousseau, o movimento romântico valorizou a nação, contribuindo para inventar algumas tradições que passaram a funcionar como referências patrióticas. Foi o nacionalismo "de esquerda" que unificou a Itália. E que, na América Latina, iniciou a descolonização. Por cá, a grande arma da propaganda republicana no fim do séc. XIX era a exaltação patriótica. Recorde-se o envolvimento dos republicanos no centenário de Camões em 1880 ou na reacção ao humilhante ultimato britânico dez anos depois.
«Sendo um conceito moderno, afirmado sobretudo no séc. XIX e relançado com a descolonização posterior à Segunda Guerra Mundial e, depois, com o desfazer do império soviético, o nacionalismo terá cabimento no século XXI? Poderá ser dado à palavra Pátria "um sentido de modernidade e de futuro", como pretende Manuel Alegre? A resposta é sim, independentemente de esquerdas e de direitas. Por uma razão simples: o individualismo das sociedades actuais não elimina um dado básico que é a dimensão colectiva das pessoas. Nós somos em boa parte constituídos por factores comunitários que nos transcendem e não dependem da nossa escolha. Como a língua em que aprendemos a falar e a pensar.
«(...) Para muita gente, a Pátria ou, se quisermos, a Nação, é agora a sua principal ou até a única âncora no colectivo. Sem ela, as pessoas sentir-se-iam perdidas.»
(Francisco Sarsfield Cabral, A Pátria revisitada em tempo de crise, 14-1-2006)

[144] A febre de sábado à tarde

«Os portugueses não se podem conformar com a possibilidade de ser escolhido à primeira volta quem eles sabem que perderia à segunda volta. Isso seria uma enorme distorção do processo democrático».
(Alberto Costa, Leiria, 10-1-2006)
*
Leio, releio, belisco-me e, por momentos, creio estar louco.
Este senhor é ministro da Nação...

13 janeiro 2006

[143] Sensibilidade e bom-senso

«Sublinhando que Souto Moura "está muito fragilizado", a deputada do Bloco de Esquerda [Ana Drago] afirmou, contudo, que "é melhor ajudar o procurador a terminar o mandato com a maior dignidade possível", dado que haverá mudança de Presidente da República, que o procurador-geral está a seis meses do fim do mandato e dada a importância da investigação em curso no processo Casa Pia.»
*
Ora aqui está um bom exemplo (e os bons exemplos são para acolher, sobretudo inter pares) de como se pode ser ideologicamente progressista, politicamente incisivo, socialmente activo sem deixar de ser intelectualmente honesto e institucionalmente correcto.

12 janeiro 2006

[142] Early evening: quem é o Estadista?

«O que distingue o pequeno do grande político é que este sabe que a verdadeira realidade é a Nação e não o Estado».
(José Manuel Moreira, Diário Económico, 12-1-2006)

11 janeiro 2006

[141] Late morning: e se cada um fizer a sua parte, para começar, como eleitor?

«O próximo Presidente da República deverá contribuir – no quadro das suas actuais competências – para a “mudança de paradigma” de que o país precisa. Trocar o apelo recorrente “a todos os portugueses” pelo singular “a cada português” seria um bom começo.
«(...) Sabemos que o carácter não-executivo do PR e a sua eleição por voto directo concorrem para um quadro ideal de influência na esfera política - acima das questões partidárias e menos dependente dos ciclos eleitorais. Hoje, o dever do próximo PR é simples: contribuir para a “autonomização” do cidadão perante o Estado. O português médio é uma criança que vive à sombra do pai-Estado. Depende e gosta de depender dele. Mais: não pondera que isso possa algum dia mudar. Fala – sempre confiante e em alta voz – nos “direitos adquiridos”. No que concerne à esfera económica, esta forma de pensar enferma de um erro básico: pensar na riqueza como um “dado garantido”. Sucede que a riqueza precisa de ser criada para poder ser redistribuída. Não cai do céu. (...)
«A sabedoria popular diz-nos que “a necessidade aguça o engenho”. (...) É preciso soltar amarras. O paternalismo estatal exagerado compromete o nosso futuro. Reduzir o peso do Estado não chega. Urge discutir e implementar uma nova “matriz relacional” que tenha por base a liberdade e a responsabilidade individuais. Isto não é – ao contrário do que alguns querem fazer crer – incompatível com uma visão contratualista e (razoavelmente) solidária da sociedade. Esse “meio termo” ideal não é fácil de encontrar nem certamente de agradar a todos. (...) Mas ninguém disse que o desafio era fácil. Apenas urgente.
«Por isto, o próximo PR deverá deixar uma mensagem simples a cada português: “não perguntes pelo que o país pode fazer por ti, pergunta pelo que tu podes fazer por ti próprio”. O que se joga no dia 22 é muito claro: contribuir, ainda que mitigadamente, para a mudança de paradigma de que Portugal precisa ou deixar que tudo continue na mesma. O resto são pormenores
(Tiago Mendes, DE, 11-1-2006, tiago.mendes@st-catherines.oxford.ac.uk)

[140] Late night: ironia fina.

«Os bem-pensantes que subalternizam a economia e petulantemente qualificam os que com ela se preocupam de modestos guarda-livros, escriturários ou contabilistas estão enganados. Não se paga salários aos funcionários públicos e aos políticos, nem pensões aos reformados com a hipotética cultura dos que dizem conhecer os autos de Gil Vicente, as redondilhas de Camões ou os sonetos de Antero».
(Medina Carreira, 8-1-2006)

09 janeiro 2006

[139] E esta, hein? (singela homenagem a Fernando Pessa)

"P- Que país deixou [Cavaco Silva]?
"R- Com todos os erros, acabou por deixar um país mais moderno, mais igualitário e, apesar de tudo, um país um bocadinho mais preparado para se aguentar no mundo.(...)
"P- Conclusão do Cavaquismo?
"R- Primeiro, as acusações que eu rejeito: que ele promoveu o compadrio, o clientelismo e promoveu o "Estado Laranja"; que misturou os negócios com a política. Esses são defeitos estruturais da sociedade portuguesa, que não podem ser atribuídos ao dr. Cavaco. A nossa mais antiga literatura política acusa todos os Governos do mesmo. Muito limitou ele os estragos.
"P- E o dr. Mário Soares, nisto tudo?
"R- Não teve importância alguma. A história destes dez anos podia-se ter escrito sem uma única referência ao dr. Soares, excepto pela dissolução da Assembleia da República em 1987. Eu suspeito mesmo que o dr. Mário Soares gostaria que o dr. Cavaco lhe sucedesse, para preservar o prestígio do cargo. Se lhe sucedesse uma nulidade, o papel na história do primeiro Presidente da III República ficaria automaticamente desvalorizado. Ao passo que uma presidência do dr. Cavaco valorizava a presidência do dr. Soares".
(Entrevista de Maria João Avillez a Vasco Pulido Valente, Público/Magazine, 26-2-1995, via http://minharicacasinha.blogspot.com)
Lembro apenas que VPV apoia Soares, na actual eleição presidencial.

[138] E se, de repente, ele lhe oferecer flores?

E se a escolha do Prof. João Lobo Antunes (1) mais não for do que o sinal de que também Jorge Sampaio deseja Cavaco Silva em Belém?
Pensem bem, caros leitores...
(1) JLA foi o mandatário nacional de JS, papel que volta a exercer, 5 anos depois, na candidatura de CS.

05 janeiro 2006

[137] Avôzinho, está a ouvir-me?

"A verdade é que o candidato do PS não tem grandes propostas, limitando-se a ser o principal foco de crispação e de vitimização. É uma atitude relativamente inútil. Mas alguém o devia ter avisado sobre a verdadeira natureza dos valores republicanos: não há privilégios para ninguém".
(Francisco José Viega, JN, 5-1-2006)

04 janeiro 2006

[136] Testemunho (II)

«Há quem vote num político pela clubite no seu partido. Tal como se é adepto incondicional de um clube de futebol, também há pessoas que vestem a camisola de um partido e votam nele independentemente de quem o chefia e de quem faz eleger. Para esses não faz muito sentido falar da credibilidade dos políticos, mas para os outros, os que acham que a política não é futebol e os partidos não são clubes, faz todo o sentido falar do tema. Até porque uma parte considerável do eleitorado muda o seu voto conforme a credibilidade dos políticos (...).
«A credibilidade de um político não reside apenas no facto ou na qualidade de não mentir, de não faltar à palavra dada, de cumprir as promessas. Se fosse apenas isso, então qualquer boa pessoa seria um político credível. De um político espera-se competência e será tanto mais credível quanto mais competência demonstrar. Significa isto que a credibilidade de um político assenta na sua história. Acredita-se num político porque se conhece, porque deu provas no passado, porque serviu o país.
«(...) Se um político tem uma personalidade forte, se resiste a contratempos, se não cede a pressões, se é consequente nos seus actos, então dizemos que se tornou credível, que podemos acreditar e confiar nele. Se, pelo contrário, pautou a sua acção pela popularidade, andando de cá para lá conforme os ventos sempre em mudança da opinião pública, então duvidaremos que seja uma pessoa vertical, credível. Ora, um político que se mantém fiel a si mesmo nos sucessos e nas adversidades, nas vitórias e nas derrotas, que cumpre o seu programa e que não se desvia dos objectivos, é um político que adquire autoridade e ao qual se lhe reconhece autoridade. E quanto mais autoridade tiver maior credibilidade terá.
«Uma outra característica de um político credível e que decorre das citadas é a responsabilidade. (...) Não pode haver responsabilidade sem identidade e sem autoridade. A responsabilidade é a capacidade e o querer de acarretar com as consequências dos seus actos, sem arranjar bodes expiatórios ou desculpas esdrúxulas.Por fim, há o respeito. O respeito ganha-se e merece-se. Podemos não concordar com uma pessoa, podemos encará-la mesmo como adversária, mas podemos respeitá-la, ao passo que há pessoas do nosso lado que não são dignas de respeito. Quem é mais credível? Obviamente quem respeitarmos.
«Não vale a pena um político reivindicar credibilidade se não a sustentar com a integridade e a identidade do seu passado, a autoridade de quem cumpre, faz e manda e assume a acção, a responsabilidade de quem responde no presente pelo passado e responderá no futuro pelo presente e, por fim, o respeito de quem se dá ao respeito e não invoca afinidades de circunstância.
«Cavaco Silva é um homem e um político da maior credibilidade.»
(António Fidalgo, professor universitário)

[135] Testemunho

«Considerando-me uma pessoa da área da esquerda, isto é, que acredita nos valores sociais que possam conduzir a evolução da sociedade no sentido de uma maior justiça social, entendo que o Professor Cavaco Silva é o Candidato que reúne as melhores condições para presidir ao País na grave crise que atravessa.
«Começando pelo facto de o seu perfil de humanista e de verdadeiro social-democrata desde logo assegurar que é errónea toda a pretensão de o considerar um candidato da direita, acrescentaria que, durante a sua governação, e apesar de muitas vezes poder ter discordado de acções do governo que dirigiu, é inegável o crescimento de oportunidades gerado na sociedade portuguesa, o que imediatamente se traduziu num benefício das condições de vida do povo, que de algum modo começou a libertar-se da subserviência a que se habituara longamente (...). Talvez também por isso tenha sido o Primeiro-Ministro mais veementemente atacado, e sem tréguas, pela dita direita, como pelo baronato mais conservador e snobe do seu próprio partido.
«Por outro lado, assegurou ao longo da sua vida não apenas uma dedicação à causa pública em que avultou a sua honestidade de carácter e incorruptibilidade, (...) comportamento de contenção e de rigor que soube pôr o interesse nacional acima dos interesses politico partidários da sua área de filiação, o que se torna cada vez mais raro na política portuguesa.
«Foi decerto um dos poucos grandes políticos do século XX português.»
(Bernardo Pinto de Almeida, Poeta)

03 janeiro 2006

[134] Early evening: introspecção

«Alguém que quer ocupar a mais alta magistratura da nação, a primeira coisa que tem de aprender é a respeitar os outros».
(Cavaco Silva, 3-1-2006)

02 janeiro 2006

[133] Late afternoon: um ano razoável para todos!

Parafraseando um vulto excepcional, muito apreciado em certos salões intelectuais (geometricamente decorados) e tertúlias gastronómicas (lá para o Gambrinus), declarava alguém, solenemente, esta tarde que sou um "razoável" escritor (e tive sorte de não me considerarem igualmente um "razoável" jurista).
Será que tal entendimento já está a fazer escola? O de que quem não for prémio Nobel é apenas razoável?

[132] Alegre homenagem (II)

"Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
"Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém me diz".
(Manuel Alegre, Trova do Vento que Passa)

[131] Alegre homenagem

" (...) Dos mitos nada sei. Falo dos vivos
dos que todos os dias ficam vencidos em Sagres
no mar dum íntimo cansaço."

(Manuel Alegre, Crónica dos Filhos de Viriato)

[130] Late morning: interlúdios (II)

«Um pobre é sempre pragmático. A necessidade aguça o engenho e os carenciados são astutos gestores dos magros haveres, com uma lucidez e imaginação que ultrapassa a dos grandes empresários».
(João César das Neves, DN, 2-1-2006)

01 janeiro 2006

[129] Late evening: interlúdios

«A menos que se tenha muito dinheiro, não vale a pena ser uma pessoa encantadora. O sentimentalismo é privilégio dos ricos, não é profissão para desempregados. Os pobres devem ser práticos e prosaicos. Antes ter um bom rendimento do que ser insinuante.»
(Oscar Wilde, O fantasma de Canterville)

[128] A raia do medo

"Em S. Bento, o candidato [Mário Soares] berrava como um possesso. Numa tarde qualquer de Maio, recebi um recado para comparecer urgentemente no futuro «espaço Valbom», um prédio em carcaça com meia dúzia de quartos alcatifados. Lá dentro, rodeado por uma corte fúnebre, Soares tentava não aliviar a raiva, partindo cadeiras na cabeça dos dignitários. Logo que entrei mandou calar a canzoada. Precisava de me fazer uma pergunta, uma pergunta fatídica: «Quem é esse Cavaco?»."
(Vasco Pulido Valente, Uma aventura com o Dr. Mário Soares, in http://kapa.blogspot.com, via http://minharicacasinha.blogspot.com)

30 dezembro 2005

[127] Late night: Ouviram?

"Solidariedade e competência são duas coisas que acho que dizem muito respeito a Cavaco Silva".
(Ramalho Eanes, 29-12-2005)

[126] O perigo do medo

«A penosa campanha eleitoral em curso, longa de mais, mostrará até ao fim esse tom de dramatização e de perseguição populista, de insinuação. Por detrás disso está o medo. Não o medo de Cavaco, mas o medo da própria democracia e do jogo claro que ela devia impor e tornar necessário. De dedinho espetado, indignado, esse medo é que é perigoso e reaccionário. E, além do mais, pretende fazer dos portugueses gente sem discernimento ou inteligência».
(Francisco José Viegas, JN, 29-12-2005)

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