Terapia política. Introspecção psicossocial. Análise simbólica.

08 abril 2007

[459] O senhor dos anéis

"É exactamente por ser assim que nos podemos perguntar por que razão demorou tanto tempo, dois anos [desde que António Balbino Caldeira, do "Portugal Profundo"] até se ver a questão tratada num jornal de referência, o Público. (...)
"A resposta a esta questão diz-nos muito sobre os males do jornalismo português, a sua complacência e deslumbramento com o poder, quando não a sua dependência dos "poderes", a começar pelas "fontes amigas" tão importantes para a carreira de um jornalista, a sua falta de coragem cívica, em particular quando tem que quebrar as regras não escritas do pack journalism. (...)
"A não existir dolo, nem facilitação gravosa e excepcional no processo académico do primeiro-ministro, o que sobrará de toda esta questão é bem mais grave do que saber se José Sócrates é ou não engenheiro, agente técnico, ou estudante finalista: é o modo como a comunicação social se coloca perante o poder socialista. É por isso que a grande esperança governativa é que o assunto morra por si, mesmo indo-se os anéis (os títulos académicos), mas ficando os dedos e os seus fios visíveis e invisíveis, os mecanismos que do poder chegam às redações, explicando muita e muita coisa que escapa ao olhar do cidadão desprevenido destes meandros vitais do poder dos nossos dias."
(J. Pacheco Pereira, "À espera que os assunto morra por si...", Abrupto, 8-4-2007)

03 abril 2007

[458] Portugal amordaçado?

«Num longo artigo, em que cita os três directores, o semanário ["Expresso"] analisa a "sofisticação" e o "profissionalismo" com que o gabinete de Sócrates gere a informação e afirmava mesmo que, “[ao] longo da semana que durou a investigação do PÚBLICO, o ‘Expresso’ apurou que José Sócrates ligou, pelo menos, seis vezes ao jornalista que investigou a história”.»
*
Noutros tempos, muito idos, isto tinha outro nome. Feio. Hoje, chama-se sofisticação e profissionalismo.
Noutros tempos, menos idos, houve um clamor contra uma tal "Central de Comunicação". Hoje, não ouço (quase) ninguém.
Devo estar velho e surdo...

02 abril 2007

[457] Adivinha quem vem nadar...

Quem é, quem é o director-geral que pediu ao ministro para ser dispensado, por doença, de chefiar a delegação portuguesa a uma reunião internacional de alto nível e foi passar uma bela semana nas Caraíbas com a namorada?

01 abril 2007

[456] E somos TODOS responsáveis

"A democracia é mais uma responsabilidade do que um luxo."
(Hisham Matar, escritor líbio exilado em Londres, ao Público, 31-3-2007)

27 março 2007

[455] ALLGARVE

"No fundo, a portugalidade não lhes interessa. São filhos do MIT, de Bildenberg, da Microsoft."
(comentário do blogger aqui)

26 março 2007

[454] A vida dos outros


A vida dos outros é a nossa.
E para todos os que desejam que, em lugar algum do mundo, ninguém mais tenha aquela vida retratada no filme tão denso quanto credível de Florian Henckel von Donnersmarck nada melhor do que, em vez de alimentarmos discussões e votações como a que acabámos de referir, levarmos os nossos filhos e educandos ao cinema. Porque a liberdade nunca está garantida. Porque ignorar é aceitar.

[453] A grande fraude

Ao longo da transmissão do jogo Portugal-Bélgica de ontem (e não sei se de outras emissões porque não tenho visto televisão), a RTP 1 passou, de cinco em cinco minutos, em rodapé, um (quase) desesperante apelo ao voto em D. Afonso Henriques para a eleição d' "O Grande Português".
Este programa tem sido uma sucessão de atrasos, embaraços e rumores.
Atrasos porque a divulgação do resultado esteve prevista para o dia do aniversário da RTP.
Rumores alimentados por permanentes fugas de informação (o que e a quem servem?) sobre a provável vitória de Salazar, numa votação que já não escapará à suspeita de fraude.
Vota quem quer no candidato que quer, sem drama nem histeria. Afinal, há resultados para todos os gostos, como demonstra a sondagem de ontem do DN/Marktest.
Embaraços porque, aparentemente, Maria Elisa e a Administração da RTP não saberiam como explicar a vitória do ditador. Mas não há nada para explicar.
Se há alguém que deve ficar embaraçado e reter bem o significado sociológico dessa eventual vitória são os ministros da Educação e da Cultura, os pedagogos, os académicos, os mecenas, os pais e encarregados de educação.
A democracia nunca está consolidada e não é com a desqualificação do Parlamento e a paternalização da cidadania que ela se aperfeiçoa e se afastam os saudosismos, à esquerda e à direita.
[Declaração de interesses - os meus "eleitos": Infante D. Henrique, o visionário, e Aristides Sousa Mendes, o humanista]

25 março 2007

[452] Amor a Portugal

(foto: Enric Vives-Rubio/PÚBLICO)

Uma selecção amadora. Um pequeno país. Um feito enorme.
A prova de que a motivação supera a técnica.

20 março 2007

[451] Porque será?

“O dr. Paulo Portas trouxe para dentro do partido o pior da memória do PREC.”
(Maria José Nogueira Pinto, Público On Line, 19-3-2007)

18 março 2007

[450] Sabedoria oriental, em terras ocidentais...

"O dinheiro pode comprar uma casa, mas não um lar.
O dinheiro pode comprar uma cama, mas não o sono.
O dinheiro pode comprar um relógio, mas não o tempo.
O dinheiro pode comprar um livro, mas não o conhecimento.
O dinheiro pode comprar estatuto, mas não respeito.
O dinheiro pode pagar a um médico, mas não pode comprar saúde.
O dinheiro pode pagar o sangue, mas não a vida.
O dinheiro pode pagar pelo sexo, mas não pode comprar o amor."

[449] Escrutínio moral?

[448] Sunday afternoon: citações

"PESSOAS INTELIGENTES FALAM SOBRE IDEIAS.
PESSOAS COMUNS FALAM SOBRE COISAS.
PESSOAS MEDÍOCRES FALAM SOBRE PESSOAS".

[447] "O mito é o nada que é tudo"

"Em Portugal, há uma suave combinação entre o poder e a arrogância que leva invariavelmente ao mito e à hagiografia.
"(...) o retrato de Cavaco Silva é também o retrato de um país que procurou sempre fugir às suas responsabilidades através dos bons ofícios de um qualquer salvador que o resgatasse do seu proverbial atraso e da sua irremediável pobreza.
"O que impressiona na biografia do eng. Sócrates (...) é o imenso vazio em que se afundam as imensas qualidades atribuídas ao biografado. (...) não há um pormenor que o diferencie, um traço que o caracterize ou uma ideia que o distinga (...). (...) não há esforço, nem sacrifício. Também não há proezas académicas. Nem feitos profissionais."
(Constança Cunha e Sá, "O Estilo e Substância", Público, 15-3-2007)

15 março 2007

[446] Segurança, gritou ele!

"Como pode um antigo líder parlamentar [António Costa, ministro socialista da Administração Interna e, antes, da Justiça] - e um dos mais brilhantes, note-se - reduzir o Parlamento [com a criação do SISI] a uma tão irrelevante excrescência democrática, uma casa de rituais anódinos que, aparentemente, apenas servirá para celebrar o fantasma da liberdade?"
(Vicente Jorge Silva, "O Fantasma da Liberdade", DN, 14-3-2007)

12 março 2007

[445] Volta, António, estás perdoado!

"A liberdade nunca foi por aqui muito estimada."
(Vasco Pulido Valente, «O Estado-polícia», PÚBLICO, 10-3-2007)

[444] Democracia de papel

«Há princípios fundamentais do Estado de direito democrático de cuja defesa, enquanto cidadão livre e advogado, nunca abdicarei. Não é uma questão de "costela partidária". É política mesmo. Em matéria de direitos, liberdades e garantias não há "eficácia" nem "coordenação" que me levem a aceitar super-homens disfarçados de justiceiros.»
(Luís Paes Antunes, "O justiceiro de S. Bento", DN, 8-3-2007)

[443] Serviço público: as primeiras páginas de (quase) todo o mundo

Newseum - the interactive museum of news:

11 março 2007

[442] O canto do cisne?

"Ségolène Royal hors course. Elle ne sera pas au second tour. C’est le premier enseignement, et ce n’est pas une surprise. Nous pronostiquions depuis longtemps sur ce site l’effondrement de cette ex icône médiatique qui n’avait aucune raison d’être dans le débat présidentiel. Aucune idée, incarnation du refus du PS de se positionner (entre les voies DSK et Fabius), vide sidéral de la pensée politique. Zéro, néant… punition aujourd’hui bien méritée! Ciao."
(Le Vrai Debat, 11-3-2007)

[441] O discípulo de Frei Tomás

«A culpa das dificuldades da Madeira é, para Jacinto Serrão [líder do PS/M], do "regabofe" e do "esbanjamento" de dinheiros públicos para obras não prioritárias.»
*
Obras não prioritárias? Mas afinal o NAL vai ser construído no Funchal? Ou é o TGV que vai ter um ramal a ligar as duas ilhas madeirenses?

[440] Carta aberta: alguém responde a este cidadão?

Ex.mo Senhor Ministro das Obras Públicas,Transportes e Comunicações,
No passado mês de Maio, enviei uma mensagem electrónica a V. Ex.cia e uma outra a S. Ex.cia o Primeiro-ministro, solicitando um esclarecimento ao processo de decisão da localização do Novo Aeroporto de Lisboa. Passado pouco mais de mês, recebi de ambas as partes ofícios informando-me que teria sido dada a devida atenção à minha mensagem e que as minhas considerações estariam a ser objecto de análise.
No entanto, não tendo desde então recebido qualquer esclarecimento, prossegui a análise dos vários estudos e documentos disponibilizados pelo Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações (ou por entidades por ele tuteladas), referentes aos processos do Novo Aeroporto de Lisboa e da Rede Ferroviária de Alta Velocidade, verificando a existência de algumas questões para as quais continuei a não encontrar resposta.
No dia 17 de Novembro, enviei um novo pedido de esclarecimento do qual voltei a não obter qualquer resposta. Nesse sentido, venho novamente por este meio, como cidadão e contribuinte, solicitar a V. Ex.cia que providencie as respostas às seguintes questões, as quais me parecem legítimas e pertinentes:
1 - Porque é que o estudo elaborado pela ANA em 1994 (que identifica a Base Aérea do Montijo como a melhor localização para o novo aeroporto e que classifica a Ota como a pior e mais cara opção) não se encontra disponível no site da NAER?
2 - Porque é que o estudo elaborado pela Aeroports de Paris em 1999 (que recomenda a localização do NAL no Rio Frio e que classifica a Ota como pior opção) não justifica o facto de não ter sido sequer considerada a opção recomendada no estudo anterior?
3 - Porque é que todos os estudos e documentos disponibilizados, elaborados entre 1999 e 2005, incluindo o "Plano Director de Desenvolvimento do Aeroporto", tiveram como premissa a localização na Ota, considerada nessa altura como a pior e mais cara opção?
4 - Porque é que o documento apresentado como suporte da decisão de localização na Ota é apenas um "Estudo Preliminar de Impacto Ambiental", no qual questões determinantes para a localização de um aeroporto (operações aéreas, acessibilidades, impacto na economia) foram tratadas de um modo superficial, ou não foram sequer afloradas?
5 - Porque é que na ficha técnica do atrás referido "Estudo Preliminar de Impacto Ambiental" não constam especialistas nas áreas da aeronáutica e dos transportes?
6 - Porque é que o "Estudo Preliminar de Impacto Ambiental" para o aeroporto na Ota usou os dados dos Censos de 1991 para calcular o impacto do ruído das aeronaves sobre a população, quando existiam dados de 2001 e uma das freguesias mais afectadas (Carregado) mais do que duplicou a sua população desde 1991?
7 - Em que documento é que são comparados objectivamente (com outras hipóteses de localização) os impactos económicos e ambientais associados à opção da Ota (desafectação de 517 hectares de Reserva Ecológica Nacional; abate de cerca de 5000 sobreiros; movimentação de 50 milhões de m3 de terra; "encanamento" de uma bacia de 1000 hectares a montante do aeroporto; impermeabilização de uma enorme zona húmida; necessidade de expropriar 1270 hectares)?
8 - Em que documento é que se encontra identificada a coincidência do enfiamento de uma das pistas da Ota com o parque de Aveiras da Companhia Logística de Combustíveis (a apenas 8 Km) e avaliadas as consequência de um possível desastre económico e ecológico decorrentes de desastre com uma aeronave?
9 - Em que documento é que se encontra a avaliação do impacto da deslocalização do aeroporto no turismo e na economia da cidade e da Área Metropolitana de Lisboa?
10 - Em que documento é que se encontra a avaliação do impacto urbanístico decorrente da deslocalização do aeroporto para um local a 45 km do centro da capital?
11 - Em que documento é que se encontra a avaliação do impacto da deslocalização dos empregos e serviços decorrente da mudança do aeroporto para a Ota?
12 - Em que documento é que se encontra equacionado o cenário da necessidade de construir um outro aeroporto daqui a 40 anos, quando o Aeroporto da Ota se encontra saturado?
13 - Que medidas estão previstas para existir uma tributação especial das enormes mais-valias que terão os proprietários dos terrenos envolventes à zona do aeroporto (e não afectados pelas expropriações) que até ao momento estão classificados como Reserva Ecológica Nacional ou Reserva Agrícola Nacional e passarão a ser terrenos urbanizáveis?
14 - Em que documento se encontra a explicação para ter sido considerada preferível uma localização para o novo aeroporto que "roubará" mercado ao Aeroporto Sá Carneiro em detrimento de captar o mercado de Extremadura espanhola?
15 - Porque é que a localização na Base Aérea do Montijo não foi sequer considerada, quando apresenta inúmeras vantagens (14 Km ao centro da cidade, posição central na Área Metropolitana, facilmente articulável com o TGV, possibilidade de ligações fluviais, urbanisticamente controlável)?
16 - Qual é a explicação para que a articulação entre as duas infra-estruturas construídas de raiz (Aeroporto da Ota e Linha de Alta Velocidade Lisboa-Porto) obrigue a um transbordo de passageiros numa estação a 2 Km da aerogare?
17 - Porque é que se optou por uma localização para o aeroporto que implicará um traçado da Rede de Alta Velocidade com duas entradas distintas em Lisboa, cada uma delas avaliada num valor da ordem de mil milhões de euros (percurso Lisboa/Carregado e Terceira Travessia do Tejo), quando um aeroporto localizado na margem Sul funcionaria perfeitamente só com a nova ponte?
18 - Qual é o valor do sobre-custo do traçado da Linha de Alta Velocidade Lisboa-Porto na margem direita do Tejo, por oposição ao traçado pela margem esquerda, fazendo a travessia na zona de Santarém?
19 - Porque é que a ligação ao Porto de Sines será construída em bitola ibérica, quando bastava que o traçado da linha Lisboa-Madrid passasse a Sul da Serra de Monfurado (um aumento de apenas 8 Km) para que fosse viável a construção de um ramal de AV para Sines (e posteriormente para o Algarve) a partir de um nó a localizar em Santa Susana (concelho de Alcácer do Sal)?
20 - Na análise custo-benefício do investimento da Linha de Alta Velocidade Lisboa-Porto foi considerada a concorrência do Alfa Pendular (na actual Linha do Norte), o facto de o traçado não permitir o transporte de mercadorias e a necessidade de mudança de transporte para percorrer a distância das estações intermédias aos centro das respectivas cidades (Leiria, Coimbra, Aveiro)?
21 - Por último, em que relatório se encontra a recomendação da Ota como melhor localização para o novo aeroporto por comparação com as outras alternativas possíveis (Rio Frio, Base Aérea do Montijo, Campo de Tiro de Alcochete, Poceirão)?
Antecipadamente grato pela disponibilidade de V. Ex.cia para responder a estas 21 questões, subscrevo-me com os meus melhores cumprimentos,
Luís Maria Gonçalves, arqº
(enviado por correio electrónico pelo leitor "pedro")

09 março 2007

[439] As palavras dos outros (9): a caminho da cegueira?

"Há aspectos da nossa vida democrática comum que não devem estar cegamente subordinados à eficácia nos resultados e em que, em nome de interesses superiores, nomeadamente o Estado de Direito e uma prudente dispersão de poder, é tolerável e aceitável uma menor eficiência. Um primeiro-ministro, seja ele quem for, controlar, tutelar e orientar o SIRP e o SISI é manifestamente imprudente do ponto de vista dos direitos, liberdades e garantias. Por motivos óbvios."
(Paulo Gorjão, "Depois do SIRP, agora o SISI?", Bloguítica, 8-3-2007)

03 março 2007

[438] Dá cá o meu, ó Abreu!

"O fenómeno da fraude em carrossel esteve em destaque na sessão de apresentação, à Comissão Parlamentar de Economia e Finanças, dos resultados em matéria de combate à fraude e à evasão fiscal em 2006.
Note-se que a fraude em carrossel assenta na criação de um circuito económico internacional, constituído por contribuintes de vários países, dentro do qual se realizam diversas operações de transacção comercial fictícias, que determinam a dedução – igualmente fictícia – e o reembolso de montantes indevidos em sede de IVA.
O facto de se tratar de operações entre Estados gera grande dificuldade na sua detecção e obriga a um grande esforço de cooperação entre os Estados.
O secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, João Amaral Tomaz, informou que é difícil aferir a dimensão real do fenómeno que representa uma perda anual de cerca de 70 mil milhões de euros nas receitas fiscais do Estado, ressalvando que apenas um número situado entre um quarto e um sexto das fraudes são conhecidas.
Estes valores são ainda reforçados por estudos que indicam que a fraude em carrossel representa, actualmente, cerca de 22% do produto interno bruto (PIB).
Está em vias de realização um estudo europeu, com o objectivo de detectar os montantes reais envolvidos nas fraudes em carrossel nos diversos países, quer ao nível da tributação directa, quer da tributação indirecta."
(Impostos Press, 28-02-2007: cortesia do leitor Reprobo)

22 fevereiro 2007

[437] Importa-se de repetir?

"É verdade que os ingredientes para que haja corrupção no nosso futebol existem, há pessoas menos responsáveis nas afirmações públicas que prestam, sendo verdade também que à volta do futebol movem-se grandes interesses económicos e financeiros."
(Gilberto Madaíl à TSF, via A Bola, 22-2-2007)
*
E pode dizer-nos, por favor, tudo o que tem feito, enquanto titular do mandato de Presidente mais longo da história da FPF, para denunciar, punir e prevenir essas situações?

[436] Opinion à la carte

"Pelo que se tem dito, dá ideia que ao lado da 'determinação' evidenciada pelo eng.º Sócrates, a subida do desemprego ou o aumento da carga fiscal são apenas dois pormenores irrelevantes de que não vale a pena falar."
(Constança Cunha e Sá, Público On Line, 22-2-2007)
*
N.B. O desemprego subiu para a sua taxa mais alta dos últimos 20 anos. Quanto à carga fiscal, apenas recordo aqui, e basta, as reacções à subida da taxa superior do IVA determinada por Manuela Ferreira Leite, em 2002.
Passaram apenas 5 anos desde essa data. Hoje, medidas idênticas (ou ainda mais gravosas) são aplaudidas. Mudou o país ou mudou a imprensa ?

[435] 40 anos depois, não é seguro, nem eficaz nem raro...

(O que é feito de forma fácil torna-se frequente.)
*

20 fevereiro 2007

[434] Violência doméstica: a vida lá dentro é uma selva?

"Some kids wish their parents were animals."
(campanha publicitária sobre "Parental violence" do "Ministry of Social Affairs" britânico)

[433] Citação dos outros: saber escrever e saber ler

"A mim interessa-me ler. Mas para isso é preciso que haja texto."
(Eduardo Pitta, "Opinião?", Da Literatura, 15-02-2007)
*
É o caso, invariavelmente, do "Da Literatura". Tem muito que ler. Nas linhas e nas entrelinhas...

[432] Mardi grass joke

Jacob para o filho:
- Filho, eu quero que te cases com uma moça que eu escolhi.
O filho:
- Mas, pai, eu quero escolher a minha mulher.
Jacob:
- Meu filho, ela é filha do Bill Gates!
- Bem, neste caso eu aceito.
Então, Jacob vai encontrar-se com o Bill Gates.
- Bill, eu tenho o marido para sua filha.
Bill Gates:
- A minha filha é muito jovem para se casar.
Jacob:
- Mas esse jovem é vice-presidente do Banco Mundial.
- Bem, neste caso tudo bem.
Finalmente Jacob vai falar com o Presidente do Banco Mundial.
- Sr. Presidente, eu tenho um jovem que é altamente recomendado para ser vice-presidente do Banco Mundial.
- Mas eu já tenho muitos vice-presidentes, inclusivamente mais do que o necessário.
Jacob:
- Mas este jovem é genro do Bill Gates!
- Bem, nesse caso ele está contratado.

[431] Em dia de Carnaval, a máscara de Portugal

«De acordo com dados ontem publicados pela Comissão Europeia, 20 por cento dos portugueses viviam em 2004 abaixo do limiar de pobreza - fixado em 60 por cento do rendimento médio nacional depois de incluídas as ajudas sociais - contra uma média comunitária de 16 por cento. (...)
Mas Portugal tem o pior resultado da UE num outro indicador, o dos trabalhadores pobres, o que significa que o salário não protege contra a precariedade: segundo os mesmos dados, 14 por cento dos portugueses com um emprego vivem abaixo do limiar de pobreza, contra 8 por cento no conjunto dos Vinte e Sete. Na República Checa, cujo PIB é muito próximo do português (75,2 por cento da UE), os trabalhadores pobres são apenas 3 por cento da população.
Em Portugal, afirma Bruxelas, "o risco de pobreza após transferências sociais, e as desigualdades na distribuição dos rendimentos (rácio de 8,2 em 2004) são das mais elevadas na UE". As crianças - 24 por cento - e os idosos com mais de 65 anos - 28 por cento - "constituem as categorias mais expostas ao risco de pobreza", acrescenta. Para a Comissão, o risco de pobreza é agravado com o aumento do desemprego - que subiu em Portugal de 4 por cento da população activa em 2000 para 7,6 por cento em 2005. Mas igualmente com a elevada taxa de abandono escolar (38,6 por cento em 2005 contra 42,6 por cento em 2000) - e o baixo nível de escolaridade dos jovens (48,4 em 2004 contra 42,8 por cento em 2000), dois indicadores em que Portugal está "muito abaixo da média da UE".»
(Estudo da Comissão Europeia: "Portugueses entre os mais pobres da União Europeia", in Público On Line, 20-02-2007)

19 fevereiro 2007

[430] Portugal paradoxal

Portugal cada vez menos integrado, cada mais mais fracturado.
O Norte e o Sul. O continente e as ilhas. O litoral e o interior. O urbano e o suburbano. O religioso e o laico. O público e o privado. O consumo e o investimento. A democracia formal e a oligarquia informal.

[429] Early night sayings

"A miséria do meu ser,
Do ser que tenho a viver,
Tornou-se uma coisa vista.
Sou nesta vida um qualquer
Que roda fora da pista."
(Fernando Pessoa)

05 fevereiro 2007

[428] Poesia do mundo: "A Invenção do Amor"

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos
autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e
detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de
fuga
um cartaz denuncia o nosso amor.
.
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com caracter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana.
.
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio
A descoberta
A estranheza
de um sorriso natural e inesperado.
.
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna.
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo.
.
Um homem e uma mulher um cartaz denuncia
colado em todas as esquinas da cidade.
A rádio já falou.
A TV anuncia
iminente a captura. A polícia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas avenidas.
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o
mundo.
É preciso encontrá-los antes que seja tarde.
Antes que o exemplo frutifique. Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia.
.
Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos.
Chamem as tropas aquarteladas na província.
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva.
Todos decrete-se a lei marcial com todas as consequências.
O perigo justifica-o. Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade.
.
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas.
.
Fechem as escolas. Sobretudo
protejam as crianças da contaminação.
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram.
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado
aos longos silêncios e aos choros sem razão.
Aplicado no entanto. Respeitador da disciplina.
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos.
Ainda bem que se revelou a tempo. Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação.
Mas é possível que haja outros. É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença.
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade.
.
Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de
discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas...
.
É possível que cantem
mas defendam-se de entender a sua voz. Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas.
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
lhe lembravam a infância. Campos verdes floridos
Água simples correndo. A brisa das montanhas.
Foi condenado à morte é evidente. É preciso evitar um mal maior.
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta...
.
Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva.
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção.
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo que inventou o amor com carácter de urgência.
.
Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias.
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua.
.
Daniel Filipe (1925 - 1964), "A Invenção do Amor e Outros Poemas", Lisboa, Presença, 1972

[427] Citações do mundo: a coragem de não desistir

"Winners never quit and quitters never win."
(Vince Lombardi)

03 fevereiro 2007

[425] Porque voto NÃO: 11 razões para dia 11

1. Porque aceito the "meaning of life".
2. Porque admiro a pessoa humana, desde o "projecto" até à sua memória.
3. Porque respeito o homem e mulher, o pai e a mãe e o/a filho/a, o/a companheiro/a e amante, o/a irmã/o e o/a amigo/a.
4. Porque valorizo a maternidade, a paternidade e a fraternidade.
5. Porque cultivo a generosidade e o amor ao próximo.
6. Porque enalteço a força de vontade, o carácter, a determinação e o esforço.
7. Porque desejo um mundo rejuvenescido, alegre, progressista, solidário, e gregário.
8. Porque acredito que o milagre da vida está na superação das causas, não na cedência às consequências.
9. Porque entendo que a mulher e o homem livres nunca desistem, pedem ajuda.
10. Porque procuro legitimar a responsabilidade.
11. Porque quero viver num mundo onde todos têm lugar: fortes e fracos, sãos e doentes, velhos e crianças, bonitos e feios, altos e baixos, gordos e magros, simples e inteligentes, nacionais e estrangeiros, ricos e pobres, brancos e negros, louros e morenos.
Todos somos carne e osso, corpo e espírito, matéria e energia. Todos somos dignos!

01 fevereiro 2007

29 janeiro 2007

[423] Portugal aberto: uma janela de oportunidade

"Um cidadão português, que sempre desejou ter uma casa com vista para o Tejo, descobriu finalmente umas águas-furtadas algures numa das colinas de Lisboa que cumpria essa condição. No entanto, uma das assoalhadas não tinha janela.
Falou então com um arquitecto amigo para que ele fizesse o projecto e o entregasse à Câmara de Lisboa, para obter a respectiva autorização para a obra.
O amigo dissuadiu-o logo: que demoraria bastantes meses ou mesmo anos a obter uma resposta e que, no final, ela seria negativa. No entanto, acrescentou, ele resolveria o problema.
Assim, numa sexta-feira ao fim da tarde, uma equipa de pedreiros entrou na referida casa, abriu a janela, colocou os vidros e pintou a fachada. O arquitecto tirou então fotos do exterior, onde se via a nova janela, e endereçou um pedido à CML, solicitando que fosse permitido ao proprietário fechar a dita cuja janela.

Passado alguns meses, a resposta chegou e era avassaladora: invocando um extenso número de artigos dos mais diversos códigos, os serviços da Câmara davam um rotundo NÃO à pretensão do proprietário de fechar a dita cuja janela.
E assim, o dono da casa não só ganhou uma janela nova, como ficou com toda a argumentação jurídica para rebater alguém que, algum dia, se atreva a vir dizer-lhe que tem de fechar a janela!"
(Nicolau Santos, in "Expresso online", s/d: divulgação por email, cortesia do leitor pedro)

28 janeiro 2007

[422] Poesia do mundo: 20 anos a ador(n)ar o classicismo

AS SENTENÇAS
*
PRIMEIRA
O mundo é todos os lugares por onde passaram
a sonhar com a liberdade de Deus na própria casa,
um terreno cercado, tendo por muro o mar
e os montes da Judeia, malha um pouco
mais larga que o arame farpado de Buchenwald.
.
Linha de terra onde o futuro se veste de hábitos
[passados,
rateada ao metro até entrar pelo quintal dos outros
a atear a inimizade tradicional entre as famílias.
.
Foram uma loja de esguelha com a desinência
[de um nome
na porta, tantas vezes repetido: com suspeita
[olhados
sempre a caminho da sinagoga ou da depradação -
esquecidos da voz dos profetas, os filhos de Saúl,
quando balbuciam sav lasav, kav lakav, zeer sham,
.
quando chamam do deserto a casta das almas
a ouvir a buzina em Guibeá, a trombeta em Raná.
.
Elas conjugam com as preces matinais o verbo
[do desastre.
.
Abrem as comportas às águas abundantes e impetuosas
do Eufrates, trazendo o invasor às portas de Bet-Aven,
a esfera onde a fúria se dedica ao seu trabalho pesado.
Vê-lo-ão levar depois na corrente emcombros e entulho
e o mundo todo por que passaram atrás de si.
*
(Paulo Teixeira, "O rapto de Europa", 1994, in Descanso na fuga para o Egipto - antologia, col. O Campo da Palavra, Ed. Caminho, Lisboa: 2006)

[421] Serviço público (3): a manobra de Heimlich (asfixia)

Serviço de utilidade pública - uma manobra que salva vidas: http://www.heimlichinstitute.org/maneuver.html

[420] Citação dos outros: Raínha de Inglaterra, eu?!

(Ramalho Eanes, sobre a deteriorização das relações entre o Presidente da República e o Primeiro-Ministro de então)
*
Anos mais tarde, quando assumiu a Presidência da República, teve oportunidade, sobretudo no segundo mandato, de demonstrar que ser símbolo institucional e ter função protocolar é para os outros...

[419] Carta de uma professora ofendida

No número 1784 do Jornal "Expresso", publicado no passado dia 6 de Janeiro, o colunista Miguel Sousa Tavares desferiu um violentíssimo ataque contra os professores (que não queriam fazer horas de substituição), assim como contra os médicos (que passavam atestados falsos) e contra os juízes (que, na relação laboral, pendiam para os mais fracos e até tinham condenado o Ministério da Educação a pagar horas extraordinárias pelas aulas de substituição).
Em qualquer país civilizado, quem é atacado tem o direito de se defender. De modo que a professora Dalila Cabrita Mateus, sentindo-se atingida, enviou ao Director do "Expresso", uma carta aberta ao jornalista Miguel Sousa Tavares. Contudo, como é timbre dum jornal de referência que aprecia o contraditório, de modo a poder esclarecer devidamente os seus leitores, o "Expresso" não publicou a carta enviada.
Aqui vai, pois, a tal carta cberta, que circula na internet.
*
«Não é a primeira vez que tenho a oportunidade de ler textos escritos pelo jornalista Miguel Sousa Tavares. Anoto que escreve sobre tudo e mais alguma coisa, mesmo quando depois se verifica que conhece mal os problemas que aborda. É o caso, por exemplo, dos temas relacionados com a educação, com as escolas e com os professores. E pensava eu que o código deontológico dos jornalistas obrigava a realizar um trabalho prévio de pesquisa, a ouvir as partes envolvidas, para depois escrever sobre a temática de forma séria e isenta.
O senhor jornalista e a ministra que defende não devem saber o que é ter uma turma de 28 a 30 alunos, estando atenta aos que conversam com os colegas, aos que estão distraídos, ao que se levanta de repente para esmurrar o colega, aos que não passam os apontamentos escritos no quadro, ao que, de repente, resolve sair da sala de aula. Não sabe o trabalho que dá disciplinar uma turma. E o professor tem várias turmas. O senhor jornalista não sabe (embora a ministra deva saber) o enorme trabalho burocrático que recai sobre os professores, a acrescer à planificação e preparação das aulas. O senhor jornalista não sabe (embora devesse saber) o que é ensinar obedecendo a programas baseados em doutrinas pedagógicas pimba, que têm como denominador comum o ódio visceral à História ou à Literatura, às Ciências ou à Filosofia, que substituíram conteúdos por competências, que transformaram a escola em lugar de recreio, tudo certificado por um Ministério em que impera a ignorância e a incompetência. O senhor jornalista falta à verdade quando alude ao «flagelo do absentismo dos professores, sem paralelo em nenhum outro sector de actividade, público ou privado». Tal falsidade já foi desmentida com números e por mais de uma vez. Além do que, em nenhuma outra profissão, um simples atraso de 10 minutos significa uma falta imediata. O senhor jornalista não sabe (embora a ministra tenha obrigação de saber) o que é chegar a uma turma que se não conhece, para substituir uma professora que está a ser operada e ouvir os alunos gritarem contra aquela «filha da puta» que, segundo eles, pouco ou nada veio acrescentar ao trabalho pedagógico que vinha a ser desenvolvido. O senhor jornalista não imagina o que é leccionar turmas em que um aluno tem fome, outro é portador de hepatite, um terceiro chega tarde porque a mãe não o acordou (embora receba o rendimento mínimo nacional para pôr o filho a pé e colocá-lo na escola), um quarto é portador de uma arma branca com que está a ameaçar os colegas. Não imagina (ou não quer imaginar) o que é leccionar quando a miséria cresce nas famílias, pois «em casa em que não há pão, todos ralham e ninguém tem razão». O senhor jornalista não tem sequer a sensibilidade para se por no lugar dos professores e professoras insultados e até agredidos, em resultado de um clima de indisciplina que cresceu com as aulas de substituição, nos moldes em que estão a ser concretizadas. O senhor jornalista não percebe a sensação que se tem em perder tempo, fazendo uma coisa que pedagogicamente não serve para nada, a não ser parafazer crescer a indisciplina, para cansar e dificultar cada vez mais o estudo sério do professor. Quando, no caso da signatária, até podia continuar a ocupar esse tempo com a investigação em áreas e temas que interessam ao país. O senhor jornalista recria um novo conceito de justiça. Não castiga o delinquente, mas faz o justo pagar pelo pecador, neste caso o geral dos professores penalizados pela falta dum colega. Aliás, o senhor jornalista insulta os professores, todos os professores, uma casta corporativa com privilégios que ninguém conhece e que não quer trabalhar, fazendo as tais aulas de substituição. O senhor jornalista insulta, ainda, todos os médicos acusando-os de passar atestados, em regra falsos. E tal como o Ministério, num estranho regresso ao passado, o senhor jornalista passa por cima da lei, neste caso o antigo Estatuto da Carreira Docente, que mandava pagar as aulas de substituição.
Aparentemente, o propósito do jornalista Miguel Sousa Tavares não era discutir com seriedade. Era sim (do alto da sua arrogância e prosápia) provocar os professores, os médicos e até os juízes, três castas corporativas. Tudo com o propósito de levar a água ao moinho da política neoliberal do governo, neste caso do Ministério da Educação.»
(Dalila Cabrita Mateus, professora, doutora em História Moderna e Contemporânea)

20 janeiro 2007

[418] Pintura do mundo: a água na nossa alma


J. Turner,
"Landscape with a River and a Bay in the Distance" (1840-50),
Museu do Louvre, Paris

[417] Poesia inflamada de dor e alegria

«Aqueles de um país costeiro, há séculos,
contêm no tórax a grandeza
sonora das marés vivas.
Em simples forma de barco,
as palmas das mãos. Os cabelos são banais
como algas finas. O mar
está em suas vidas de tal modo
que os embebe dos vapores do sal.
Não é fácil amá-los

de um amor igual à
benignidade do mar.»
(Fiama Hasse Pais Brandão, 1938-2007, As Fábulas, Edições Quasi, 2002)

[416] Grito da alma

"Obrigado, mãe, por me teres deixado nascer!"
*
(cortesia do leitor gcobarros)

15 janeiro 2007

[415] O Grande Tuga

1. Finalmente, os resultados: D. Afonso Henriques, Álvaro Cunhal, António O. Salazar, Aristides Sousa Mendes, Fernando Pessoa, Infante D. Henrique, D. João II, Luís de Camões, Marquês de Pombal e Vasco da Gama.
2. Poucas surpresas, excepto, talvez, Cunhal e Sousa Mendes.
3. Nenhuma mulher, ao contrário da Alemanha e dos EUA (uma) e da França e da Grã-Bretanha (duas). Nem Amália, o que talvez seja o mais surpreendente!
4. Quase ninguém das artes e das ciências, tirando os dois poetas maiores (a França elegeu seis!). Curiosamente (para um país latino), também nenhum desportista...
5. Em dez eleitos, apenas quatro viveram no século XX, o que não contradiz a tendência "saudosista" das outras eleições nacionais.
6. Só os EUA incluiu, como nós, o fundador da nacionalidade.
7. As minhas escolhas, necessariamente pessoais e discutíveis, dos três maiores (de entre os listados), por ordem alfabética: Aristides Sousa Mendes (humanismo), Infante D. Henrique (engenho) e Luís de Camões (arte).

[414] Late evening: a preferência de Molière

"Sur quelque préférence une estime se fonde,
Et c'est n'estimer rien qu'estimer tout le monde."
*
["É numa preferência que a estima fica assente,
E não estima ninguém quem estima toda a gente."]
*

Molière, Le Misanthrope (1667), I acto, I cena (55).

13 janeiro 2007

[413] A pergunta do dia

Primeiro foi a globalização pelos mares (Portugal, séc. XV). Depois, a globalização pela técnica (Reino Unido, séx. XVIII) e tecnologia (EUA, Japão, Europa: séc. XX). Segue-se a globalização pela democracia virtual, electrónica e digital (Índia, Brasil: séc. XXI)?

[412] As palavras dos outros (8): fugir não resolve

"Não ignoramos que, muitas vezes, a decisão de abortar é fruto de grandes sofrimentos e angústias (sem excluir as pressões), que é um verdadeiro drama para muitas mulheres. Mas pensamos que a um drama não se responde com outro drama: o de destruir uma vida humana que desabrocha e que é o elo mais fraco em todo este processo. (...)
"A resposta verdadeiramente humana e humanista a este drama é um projecto solidário e galvanizador de todos os recursos da sociedade civil e do Estado, para oferecer todo o cuidado, acolhimento e protecção de ordem social, económica e psicológica tanto ao filho em gestação como à mãe que o gera. (...)
"A liberalização do aborto, sob a forma encapotada de despenalização, não é a resposta digna e condigna. É uma fuga em frente, para não atacar o problema nas suas raízes. Não é caminho de progresso e de futuro."
(D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, in Público online, 13-1-2007: destaques nossos)

06 janeiro 2007

[409] Early evening: nem todas as respostas estão nos livros

"este livro. passa um dedo pela página, sente o papel
como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto.
este livro tem palavras. esquece as palavras por
momentos. o que temos para dizer não pode ser dito.
sente o peso deste livro. o peso da minha mão sobre
a tua. damos as mãos quando seguras este livro.
não me perguntes quem sou. não me perguntes nada.
eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.
pousa os lábios sobre a página. pousa os lábios sobre
o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos."
(José Luís Peixoto, "Este Livro")

[408] Cirurgia política

Armando Vara - brindado com a CGD, em Lisboa.
D. Freitas do Amaral - recolhido num hospital ortopédico, em Lisboa.
E. Ferro Rodrigues - resguardado na OCDE, em Paris.
G. Oliveira Martins - agraciado com o TC, em Lisboa.
João Cravinho - remetido para o BERD, em Londres.
João Soares - enfiado na CM, em Sintra.
Manuel Alegre - entretido com o movimento cívico, em Portugal.
Manuel Maria Carrilho - silenciado na CM, em Lisboa.
Mário Soares - engripado em Belém, Lisboa.
Paulo Pedroso - perdido na blogosfera.

[407] Deputada, mas pouco...

"Jerónimo, não seja ingénuo nem nos faça de ingénuos.
Não se trata de manter a palavra dada numa declaração assinada. Trata-se de aferir a legalidade e a legitimidade de tal declaração, que pode muito bem ser inválida.
Os deputados, embora em listas partidárias (ou, nalgumas eleições, em listas independentes), são eleitos pessoalmente. É o candidato A que é eleito, atendendo ao número de votos da sua lista. Por isso mesmo, não é indiferente estar em primeiro ou em último lugar da lista. Foi Luísa Mesquita, concretamente, que foi eleita por Santarém e a boa fé na relação entre eleitos e eleitores exige que, salvo ocorrência extraordinária (como o falecimento ou a incompatibilidade de exercício), se mantenha no cargo durante toda a legislatura, que foi para isso que foi eleita, ela e os restantes 229 deputados.
Se fosse indiferente ser o candidato A, B ou C, os partidos nomeavam os seus representantes parlamentares. Ora, isto não é uma nomeação, é uma eleição!"
(Núncio, comentário deixado aqui: "Jerónimo de Sousa teme acordo entre PS e PSD para mudar leis eleitorais", Público On Line, 6-1-2007)

24 dezembro 2006

[404] Feliz Natal!

A revista 'TIME' acaba de eleger, como Personalidade do Ano, "YOU", ou seja, eu, tu, ele, cada um de NÓS, enquanto pessoa humana que, com a sua força e energia, ajuda a construir um mundo melhor, sendo parte activa e decisiva no maior desafio que se coloca à Humanidade - viver em dignidade, com o outro e para o outro!

É partilhando este sonho de um futuro mais digno que envio a todos os leitores e bloggers votos de um Feliz Natal, desejando um Ano de 2007 pleno de graças.

[403] Viva a vida!

(Papa Bento XVI, na missa dominical do Angelus, 24-12-2006)

02 dezembro 2006

[402] Saturday early afternoon, December: "Que dia? Que olhar?"

"Cheguei demasiadamente tarde
e já todos se tinham ido embora,
restavam papéis velhos, horas mortas,
identidade, sujidade, eternidade.
Comeram e beberam o meu
corpo e o meu sangue; e, pelo caminho, a minha biblioteca,
e escreveram a minha Obra Completa;
sobro, desapossado, eu.
Resta-me ver televisão,
votar, passear o cão
(a cidadania!). Prosa também podia,
e lentidão, mas algo (o coração) desacertaria.
Dar um tiro na cara como Chamfort?
Tornar-me aforista ou ainda pior?
Mudar de cidade? Desabitar-me?
Post-modernizar-me? Experienciar-me?
Mas com que palavras ou sem que palavras?
Os substantivos rareiam, os verbos vagueiam
por salões vazios e incendiados
entregando-se a guionistas e aparentados.
Cheira demasiadamente a morte por aqui
como no fim de uma batalha cansada
de feridas antigas, e eu sobrevivi
do lado errado e pela razão errada.
“Que dia? Que olhar?”
(Beckett, “Dias felizes”)
Que feridas? Que estandar
-te? Que alheias cicatrizes?
Estou diante de uma porta (de uma forma)
com o – como dizer? – coração
(um sítio sem lugar, uma situação)
cheio de palavras últimas e discórdia."
(Manuel António Pina, in Relâmpago n.º 10)

[401] Late night: o eixo do mal

"Todas as formas de totalitarismo baseiam-se em três eixos: na simplicidade, no medo, na força."
(Andreu Vallès, 1-12-2006, Livre e Catalão)
*
"Andreu,
simplicidade, força e IGNORÂNCIA."
(Núncio, em comentário ao post)
*
E.T. Só o ignorante tem medo...

[400] Deixem-me servir as pessoas...

"Não cometi crime nenhum. Crime é servir-se do poder em proveito pessoal, mas eu sempre servi as pessoas do meu concelho."
(Fátima Felgueiras, citada aqui)
*
O populismo no seu expoente! Evita não faria melhor...

27 novembro 2006

[399] Pintura do mundo surreal

Mário Cesariny, "Linha de água", 1989

[398] Early night: o que importa...

"PASTELARIA
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício.
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente!
Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra."
Mário Cesariny, 1923-2006, "Nobilíssima Visão" (1945-1946) in burlescas, teóricas e sentimentais (1972)

25 novembro 2006

[397] Serviço público: IMC

Para calcular e acertar o índice de massa corporal:

[396] A palavra (corajosa) dos outros: cortar a direito

(Paula de Sá, "Por favor, algum pudor!", Comunicar a direito, 24-11-2006)
*
E, agora, António José Teixeira, João Morgado Fernandes, Fernanda Câncio, José Manuel Fernandes, Diana Andringa e vossos pares?
Também vão escrever artigos a louvar, mais uma vez, a coragem e o reformismo governamentais?

[395] O maior clube do mundo!



[394] Impressões tardias de uma entrevista histórica (passada a tempestade)

1. É, talvez, a primeira vez que, na III República, num regime semi-presidencial (ou semi-parlamentar), o Chefe do Estado sanciona tão positiva e expressamente a actuação do órgão executivo.
2. Mais surpreendente se torna tal (aparente) aprovação política se atendermos ao facto de se viver uma situação, chamada em politologia, de "coabitação".
3. Nem em situações anteriores de forte empatia entre Belém e S. Bento (Eanes/Cavaco, Soares/Guterres, Sampaio/Guterres e Sampaio/Sócrates) se foi tão longe...
4. Uma interpretação como a presente dos poderes constitucionais (Constituição semântica e formal) do Presidente da República encerra o risco de fazer resvalar o regime para um semi-presidencialismo "à la française".
5. Não que isso fosse inaceitável, do ponto de vista teórico-conceptual, mas teria que ser validado democraticamente.
6. Outro risco, bem actual e concreto, de tal interpretação é a de se perder o respeito institucional e político, devido pelo Chefe do Estado, à(s) Oposição(ões).
7. O Presidente da República, no exercício do chamado "papel moderador" ou de árbitro, não joga nem capitaneia nenhuma das equipas.
8. Muito menos é comentador ou analista político.
9. Fica por saber (mas pressinto que não demorará mais de um ano) se estas interpretação e actuação são fruto da época...

15 novembro 2006

[393] A vida é bela! (7)

Sabia que as cristas da impressões digitais são únicas em cada indivíduo?
Elas são o resultado da mistura ao acaso das ondulações do líquido amniótico no ventre materno - fenómeno denominado de morfogénese caótica - que ocorre nas primeiras seis semanas de vida. Nunca se alteram e reaparecem sempre com as mesmas características iniciais, ainda que removidas voluntária ou acidentalmente.
A primeira definição científica deve-se a Sir Francis Galton, em 1892.

12 novembro 2006

[392] Poesia à noite: ESPERO

"Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda."
(Sophia de Mello Breyner Andresen)

[391] Poesia à noite: GANSOS SELVAGENS

"Não tens de ser bom.
Não tens de caminhar de joelhos
através do deserto durante cem milhas, em penitência.
Apenas tens de deixar que o animal suave do teu corpo
ame aquilo que ama.
Fala-me de desespero, o teu, e contar-te-ei do meu.
Entretanto, o mundo avança.
Entretanto, o sol e os seixos límpidos da chuva
atravessam as paisagens,
as pradarias e as árvores profundas,
as montanhas e os rios.
Entretanto, os gansos selvagens, altos no limpo ar azul,
regressam de novo a casa.
Quem quer que sejas, pouco importa quão solitário,
o mundo oferece-se à tua imaginação,
chama-te como os gansos selvagens, com rigor e entusiasmo
–vezes e vezes a anunciarem o teu lugar
na família das coisas."
(MARY OLIVER, "Dream Work", Grove, 1986. Tradução: José Luís Peixoto)

07 novembro 2006

[390] É de propósito?

Marques Mendes na Madeira e, hoje, no Parlamento.
Só pode estar tudo combinado... Ninguém faria pior, que Deus me perdoe!

05 novembro 2006

[389] Importa-se de repetir?

"O que é isso da classe média, a não ser um lugar comum?"
(José Sócrates, em declarações informais durante o voo Lisboa/Maputo, relatados pelo Público, "A viagem mais louca de Sócrates", 5-11-2006: aqui)

02 novembro 2006

[388] Pedaços de cultura: "o rosto de gregor samsa, naïve e nítido"

Inauguração da exposição de desenhos de valter hugo mãe, no dia 4-11-2006, das 16 às 20 horas, que poderá ser vista até 16-12-2006, na galeria Símbolo, na Rua de Miguel Bombarda, n.° 451, 4050-378 Porto.
Horário: de Segunda a Sábado, das 15 às 19 horas.
Contactos: Tel. n.º 226 099 349 • Fax n.º 226 002 026 • Tlm. n.º 917 262 214 • simbolo@sapo.pt
www.galeriasimbolo.com

[387] Limpezas de Outono

Economia, Saúde, Educação e Cultura.

01 novembro 2006

[386] Tão baça quanto a barragem...

... a nossa dignidade.
Cahora: fim do império, há muito decretado.

[385] Sem máscara e sem medo...

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
(Sophia de Mello Breyner Andresen, "Porque os outros se mascaram mas tu não")

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