Terapia política. Introspecção psicossocial. Análise simbólica.

22 dezembro 2005

[114] Soares e a Cultura

«Soares faz sempre questão de se mostrar como um homem culto e de apresentar Cavaco Silva como um mero contabilista. No entanto, as ideias de Soares dificilmente podem ser consideradas as ideias de um homem culto. Um homem culto deveria ser capaz de produzir um pensamento organizado e fundamentado a partir da informação dispersa de que dispõe. Ou pelo menos, deveria ser capaz de identificar as questões relevantes a partir da informação disponível evitando dizer demasiadas asneiras. Mas Soares não é capaz de fazer isso a propósito dos temas que lhe são mais queridos, sejam eles os Estado Unidos, os Oceanos ou a Globalização.
«Sobre os Estados Unidos, tem um pensamento que mais não é do que uma reacção pavloviana ao grande capital e ao imperialismo ianque típica da esquerda. Demonstra desconhecer as peculiaridades da política americana, caindo demasiadas vezes no lugar comum e no provincianismo. É totalmente incapaz de perceber o fenómeno das religiões protestantes nos Estados Unidos chegando mesmo a ser ofensivo quando mete tudo no saco do fundamentalismo religioso.
«Os Oceanos são para Soares uma bandeira política sem qualquer conteúdo substantivo. Soares não parece ter nenhum interesse pelos aspectos estratégicos, científicos, ambientais ou políticos dos Oceanos. Só mostra interesse pelos Oceanos enquanto bandeira politicamente correcta legitimadora da sua persona política. Preocupa-se com os oceanos como se poderia preocupar com a igualdade de género ou com o lince da Serra da Malcata. Os detalhes não interessam, o que interessa é que esteja na moda e fique bem.
«Sobre a Globalização, Soares não tem qualquer pensamento próprio. O que diz não resultou de qualquer esforço intelectual. O que diz é o que qualquer jovem inconsciente sem a experiência nem a biblioteca de Soares poderia dizer. Soares é incapaz de perceber que a Globalização é um processo que não é controlável por uma autoridade central e que por isso está para além da política. E também não percebe que a Globalização favorece precisamente aqueles que ele quer proteger da Globalização.
«Soares, como muito boa esquerda, usa a cultura como arma de arremesso político. Mas quem o faz não precisa de ser culto. Alguma falta de modéstia costuma ser suficiente. De resto, falta a Soares aquilo que falta a muitos que se auto-intitulam cultos. Falta-lhe cultura suficiente para perceber porque é que quem é verdadeiramente culto não precisa de se auto-intitular como tal
(João Miranda, A Blasfémia)

20 dezembro 2005

[113] Early evening: citação para um debate

"Um pessimista vê uma dificuldade em cada oportunidade; um optimista vê uma oportunidade em cada dificuldade."
(Winston Churchill)

[112] BOAS FESTAS!

Parafraseando um amigo, com a sua cortesia, e "aproximando-se a festa do NASCIMENTO, saúdo todos aqueles que dão sentido à minha vida, que são a minha bússola, que me fazem renascer todos os dias, mais forte e mais humano..."

[111] O Rei-Presidente

« (...) a respublica continuou a rever-se na monarquia a cujo património político pertencia o reino; monarquia cuja autoridade única, de próprio movimento, certa ciência, livre vontade e poder absoluto provinha da concessão popular.
« É este o sentido de legalidade popular que enforma a acção do rei português de Tordesilhas, que tomará por divisa "Pola lei e pola grei" como expressão de uma consubstancialidade entre direitos reais e direitos de Estado, isto é, consubstancialidade entre Monarquia e Estado na pessoa de D. João II; uma monarquia activa na forma como aborda e pondera os termos da bula de Alexandre VI (bula Inter Coetera) de 3 e 4 de Maio de 1493, na sequência da primeira viagem de Colombo ao Novo Mundo; e activa ainda, no modo como preparou e conduziu a negociação do Tratado de Tordesilhas, logrando afirmar, em termos internacionais a definição de um domínio; de um império marítimo à escala mundial; reconhecido bilateralmente à luz de um momentâneo encontro; de um acerto de interesses no respeito pelo compromisso da palavra sobre o confronto bélico.»
(Fernando Amorim, "Tordesilhas: ponto de encontro, lugar de partida")

[110] Valores ou ideologias?

« (...) ao longo destas décadas, muitos portugueses puseram de lado as suas ideologias de direita e ajudaram a eleger candidatos de esquerda. Passou-se sempre assim. Não se pode por isso, em nome da Democracia, cair na mera indignação quando se prefigura a possibilidade de pessoas de esquerda, que o foram toda a vida, ajudarem a eleger o candidato da direita. A alternância democrática, que já se vira nas legislativas e nas autárquicas, pode ocorrer agora nas Presidenciais.
« (...) Hoje falta memória à esquerda. Provavelmente porque foram os próprios políticos de esquerda que confundiram e misturaram tudo numa amálgama ideológica.
« (...) Cavaco tem o condão de conseguir reunir numa qualquer mesa de jantar de apoio à sua candidatura Silva Graça, autor do livro "Lisboa–Cidade Abril", e Joaquim Veríssimo Serrão, saudoso do Estado Novo.»
(Luíz Carvalho, Cartas Digitais: "A esquerda e o candidato da direita", 13-12-2005)

[109] Late night: citações preciosas (5)

«Sócrates - É, então, preciso nunca cometer injustiça?
Críton - Certamente.
Sócrates - Nem pagar o mal com o mal, como diz a multidão, uma vez que há que não ser injusto de nenhuma maneira.
Críton – Parece que não.
Sócrates – Então, não devemos fazer o mal?
Críton – Com certeza que não, Sócrates.
Sócrates – E é justo ou injusto que aquele que sofre retribua o mal, como dizem as gentes?
Críton – É injusto.
Sócrates – Pois, fazendo o mal aos homens que são injustos, em nada diferimos deles.
Críton – Dizes a verdade.
Sócrates – É então preciso não pagar o mal com o mal, nem fazer mal a qualquer homem de quem nos venha mal. [...] Saindo nós daqui sem que a cidade o consinta, fazemos mal a alguém e, precisamente, a quem menos deveríamos fazer. Ou não será assim?
Críton – Não tenho resposta para o que perguntas, Sócrates, pois não sei.»
(Platão, Críton, 49b – 50a)

[108] Pode repetir?

“Eu nunca afirmei que, se Cavaco Silva ganhar as eleições, no dia seguinte havia um golpe de Estado!”
(Jerónimo de Sousa, debate Alegre/Jerónimo, TVI, 19-12-2005)

19 dezembro 2005

[107] A esperança de uns é o desespero de alguns...

«Os presidentes que precederam Cavaco não chegaram a Belém com o peso de uma promessa precisa. De Eanes, que apesar de tudo carregou o maior peso, só se esperava que não entregasse o Exército à extrema-esquerda ou à extrema-direita e que metesse a tropa nos quartéis. De Soares só se esperava que "salvasse a liberdade" de um revanchismo largamente imaginário e que liquidasse, de caminho, a insuportável aventura do PRD. De Sampaio, no fundo, no fundo, só se esperava que ele não deixasse continuar o "cavaquismo" por outros meios, cometendo a improvável proeza de ser eleito.
«Mas de Cavaco toda a gente hoje espera a recuperação da economia portuguesa, a reaproximação de Portugal do nível médio de "Europa", uma drástica diminuição do desemprego, um crescimento de, pelo menos, três por cento (como a Espanha) e o definitivo reequilíbrio das finanças. Sem talvez se aperceber, Cavaco prometeu o pacote inteiro, com entusiasmo, com zelo, como fervor. Pior: com suficiência. Ele sabe, ele cumpre.»
(Vasco Pulido Valente, Público, link indisponível)
Por tudo isto e porque é de competência, Estadismo, ousadia, reformismo e confiança que Portugal precisa, CS tem estado muito à frente dos seus quatro adversários "oficiais" (aproveito para repudiar, por profundamente anti-democrática, a estratégia da comunicação social de só dar voz aos candidatos "parlamentares").
Vasco Pulido Valente, então, bem poderia, em coerência, expressar total discordância com a tese do seu candidato preferido de que CS nada diz e nada vale. Pelos vistos, VPV entende que CS vale muito e diz demais...

18 dezembro 2005

[106] Late evening: o blogue do lado

[1491] -- "(...) Soares parece ainda não ter percebido que a sua estratégia de dramatização não engana ninguém. «Os portugueses», racional ou instintivamente, compreendem os desafios e os contextos. São menos manipuláveis politicamente; mais sofisticados na sua abordagem. Em suma, democraticamente mais maduros. Soares, de forma autista, insiste em não o perceber. Dizer que a eleição de Cavaco Silva seria passar-lhe um cheque em branco, ou que ele não é um moderado, apenas dá vontade de rir. Pensar que com estas declarações se consegue desviar Cavaco Silva da sua estratégia é igualmente cómico. Soares, cada dia que passa, confirma cada vez mais que é um homem do passado".
(Paulo Gorjão, in Bloguítica, 18-12-2005)
Sobre o assunto do post anterior, a visão (sempre sensata) de Paulo Gorjão, seguramente (sem cortesia) um dos mais consistentes blogueurs portugueses.

[105] Descubra as diferenças

"(...) os portugueses têm uma «nova exigência» para com a classe política, esperando desta «honestidade e competência» e dispensando a «retórica» e as «divergências estéreis»."
"Se o elegessem, os portugueses estariam a passar-lhe um cheque em branco, porque ninguém sabe o que pensa e do que é capaz."
Pois é, ninguém sabe o que pensa e do que é capaz o homem que chefiou 3 (três!) governos constitucionais (por mero acaso, dois deles empossados pelo signatário das dúvidas), que já antes havia sido ministro das finanças, que tem obra escrita como académico e até uma auto-biografia política...
Se MS não sabe quem é e o que vale CS, o que andou a fazer todas as quintas-feiras, durante 10 (dez!) anos? A dormir?

[104] O dono da bola

"Dizer que Cavaco não tem legitimidade moral e histórica para ser Presidente da República não é apenas um argumento arrogante, anacrónico e politicamente insustentável que traduz as pretensões monopolistas da esquerda sobre a chefia do Estado. É, sobretudo, um argumento estúpido que ofende a maioridade cívica dos eleitores e só serve, por isso mesmo, para reforçar a sua candidatura. Já o afirmei e escrevi diversas vezes, mas constato que, apesar das nuances, não será essa a opinião da maioria dos principais adversários de Cavaco (com a excepção mais notória de Manuel Alegre).
"Fazer o processo a Cavaco por não ter sido um resistente antifascista e pretender impedi-lo, por isso, de ascender à Presidência significa que o salazarismo continuará a pairar, eventualmente para sempre, como um fantasma sobre a normalidade democrática do País."
(Vicente Jorge Silva, DN, 17-12-2005)
Já aqui tenho dito que acho um erro de palmatória o ataque cerrado a CS, sobretudo porque - mais do que assinalar as eventuais fragilidades da sua candidatura - assenta em preconceitos sócio-culturais e históricos. Vejamos:
1. O PR não tem que ser um antigo combatente anti-fascista (isso, por si só, não qualifica especialmente nenhum cidadão, além de que, dentro de alguns anos, não é sequer etariamente possível).
2. O PR não tem que ser socialista ou laico (convém que seja republicano, sim). Não há uma "matriz presidencial" forjada por nenhum "Pai da Pátria".
3. O PR não tem que ser letrado em poesia, filosofia ou escultura. É útil que seja uma pessoa esclarecida, sensata, com mundividência. Mas, sobretudo, uma pessoa respeitada, eticamente irrepreeensível e politicamente agregadora (não esqueçamos que o PR tem uma casa civil e uma casa militar, verdadeiras assessorias técnicas).
4. O PR não tem que ser fotogénico, telegénico, muito simpático ou exuberante. Não estamos a eleger o próximo candidato ao 'Big Brother', embora às vezes pareça!
5. A mulher do candidato não concorre a nada, por isso não pode condicionar a candidatura do seu marido nem imiscuir-se na candidatura de terceiros.

17 dezembro 2005

[103] Autoridade, responsabilidade e democracia

« (...) há muito que se assiste, da parte das elites políticas e de opinadores públicos, à minagem da autoridade do Estado e, nomeadamente (...), das polícias. Esta minagem assenta culturalmente numa deriva perversa da cultura antifascista que assume moralmente que, por natureza, a polícia é má e age por mal. Ao que acrescem as teses desresponsabilizantes de que os criminosos são vítimas da sociedade que, por esse motivo, os condiciona socialmente para o mal.
« Que a polícia não é formada por ‘gentlemen’ só pode surpreender quem desconhecer a sociedade de onde os seus agentes são extraídos, bem como o crivo cultural dessa extracção. Numa sociedade com um baixo nível cultural e com um enorme lastro de iliteracia, ter uma polícia formada por cidadãos de elevado contorno cultural e com educação de ‘gentlemen’ só se conseguirá pagando os salários compatíveis com a relativa escassez da oferta. E, mesmo assim, levaria muito tempo a renovar todo o quadro.
« De qualquer forma, a polícia é formada por cidadãos normais que se esforçam por cumprir o melhor que sabem as missões que lhes são atribuídas. Por isso, quando (20 anos depois de Abril) um Governo afirma que esta não é a minha polícia, sem criar de imediato as condições – financeiras, organizativas e políticas – para a substituir pela sua polícia ideal, a única coisa que consegue é desautorizar publicamente a única polícia de que o Estado dispõe, retirando-lhe a eficácia para assegurar a segurança que os cidadãos têm o direito de exigir. O mesmo acontece quando (antes) um Presidente da República invectiva publicamente um polícia no cumprimento da sua função. Ou quando comentadores sistematicamente condenam, ‘a priori’, qualquer intervenção policial que recorra ao uso da força.
« Essas atitudes acabam por favorecer, involuntariamente é certo, as forças da insegurança e minar a capacidade de o Estado garantir a segurança dos cidadãos. Por isso, se se quiser mesmo garantir essa segurança, ter-se-á que começar por mudar de atitude, recusando a cultura anti-autoridade».
(Vítor Bento, DE)

[102] Early evening: quoting time (citações do mundo 4)

"Ao homem equitativo, a legalidade importa menos do que a igualdade ou, pelo menos, ele sabe corrigir os rigores e as abstrações daquela mediante as exigências muito mais flexíveis e complexas (...) desta."
(André COMTE-SPONVILLE, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes)

[101] Late afternoon: "O Natal de Cristo"

Não, meu Deus, não: eterna é a Palavra,
Eterno é o Verbo teu
Que, antes do ser dos séculos, nos deste,
Que o mundo recebeu
Nesta noite solene e sacrossanta.
Nós, nós é que o quebrámos,
Nós, sim, o novo pacto e juramento
Sacrílegos violámos;
Esaús do Evangelho, nós vendemos,
Com torpe necedade,
Por apetites sórdidos, a herança
Da glória e liberdade.
Por isso os reis da terra inda nos contam
Escravos, às manadas;
Por isso, em vão, do jugo sacudimos
As cervizes chagadas.
Porque não temos fé, não temos crença,
E a Cruz abandonamos,
Donde somente está, só vem, só fulge
A luz que procuramos.
E os vãos sabedores, esses magos
Que a vaidade cegou,
Não olham para o céu, não vêem a estrela
Que hoje em Belém raiou.
(Flores sem Fruto", Almeida Garrett)

[100] PORTUGAL, Alexandre O'Neill

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
*
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há “papo-de-anjo” que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

[99] Não se importa de repetir?

"Tenho mil e tal pessoas na minha comissão e não as posso conhecer todas."
(Mário Soares, Debate Soares/Louçã, SIC, 16-12-2005)

Então, V. Ex.ª está assim tão desesperado que aceita o apoio de qualquer um?

[98] Dignidade, moral e verdade

« (...) na generalidade, os políticos, naquilo que deles podemos ver com clareza, estão interessados, não na verdade, mas no poder e na manutenção desse poder. Para manter esse poder, é fundamental que as pessoas continuem ignorantes, que vivam na ignorância da verdade, e até da verdade das suas próprias vidas. Aquilo que nos rodeia é uma vasta tapeçaria de mentiras, sobre a qual nos vamos alimentando.
« O que aconteceu com a nossa sensibilidade moral? Alguma vez a tivemos? O que quer dizer esta expressão? Refere-se a um termo pouco usado nestes dias - consciência? Uma consciência de agir não apenas com os nossos próprios actos mas com a responsabilidade partilhada nas acções dos outros? Já tudo isto morreu?
« Estou convicto de que, apesar dos inúmeros obstáculos que existem, nós, cidadãos, com uma feroz determinação intelectual, inquebrável, sem desviar, conseguiremos definir a verdade real das nossas vidas e das nossas sociedades - e essa é uma obrigação crucial que nos diz respeito. É de facto obrigatória.
« Se essa vontade não estiver incorporada na nossa visão política, não tenhamos esperança de restaurar aquilo que já quase se perdeu para nós - a dignidade do homem.»
(Harold Pinter, Prémio Nobel da Literatura, "A carta que o Nobel da Literatura escreveu ao júri", traduzida por Jorge Silva Melo)

[97] Quem tudo quer, tudo perde...

«O discurso de Mário Soares aproxima-se, finalmente, da dramatização. A sua guerra pessoal contra Cavaco transformou-se, aos poucos, numa coisa doentia, recorrente, repetitiva, monótona e desagradável.
« (...) Esta campanha veio trazer um Soares que não merecia ser visto desta maneira, dada a sua importância para o quadro geral da República: obrigado a desmentir-se a si mesmo (em relação a Sócrates, que odiava; em relação à qualidade dos políticos; em relação a África; em relação a Guterres, sobre quem diz coisas ditirâmbicas, a propósito da «estratégia de Lisboa»; em relação ao PS), a falar do que não quer e do que o enfastia, defendido por Jorge Coelho com a ideia absurda da desistência dos outros candidatos de esquerda.»
(Francisco José Viegas)

16 dezembro 2005

[96] O meu testemunho, por interposta pessoa

«Às vezes palavras bonitas não chegam. Ultimamente parece que Portugal tem vivido, ou tentado viver, à custa de grandes retóricas, de discursos comoventes interpretados por actores que já não convencem. Vão-nos dando muitas luzes e centros comerciais e estádios de futebol e mais fantasias para camuflar a falta de soluções reais para um pais em crise.
«Apoio o Professor Cavaco Silva pela referência que ele é, de respeito, honestidade e competência. Pela segurança que me dá. Estou aqui independente de qualquer partido político, por achar que o estado do país merece mais do que me esconder na segurança de não me manifestar por coisa alguma. Apoio o Professor Cavaco Silva para Presidente da República porque Portugal precisa de se enfrentar de maneira real e de alguém que chame a atenção para isso mesmo.»
(Tiago Bettencourt, Cantor dos «Toranja»)

[95] Era mesmo necessária esta campanha?

«Da parte dos outros candidatos há uma fixação quase doentia na minha pessoa.
«Todos os dias me fazem ataques, distorções e mentiras, que são o reconhecimento de que a minha candidatura tem apoio de todos os quadrantes e que os portugueses vêm em mim a pessoa que os pode ajudar a vencer as preocupações quanto ao futuro.»
(Cavaco Silva, à saída do Tribunal Constitucional, 15-12-2005)

[94] A "velha" Esquerda, segundo o "Expresso"

" (...) Já Mário Soares entrou nesta campanha eleitoral com duas frentes simultâneas de batalha. À direita, contra a fortíssima probabilidade de Cavaco Silva vencer logo à 1ª volta. À esquerda, contra a inesperada dimensão que a candidatura de Alegre assumiu, relegando-o a ele, «candidato oficial» do PS e venerando pai da esquerda, para o terceiro lugar das sondagens.
" Esta dupla frente de batalha tem-no forçado ao papel, pouco condizente com o estatuto que adquiriu, de ter que falar de baixo para cima. De estar constantemente a atacar Cavaco e Alegre, em vez de falar para o país e do país. Como se viu no debate com Alegre, Soares menoriza-se, lança farpas e remoques constantes no meio de um discurso repetitivo e pouco fluente.
" Mário Soares tem o mesmo discurso de há 10, de há 15, de há 20 anos. Mais empastelado e um pouco mais radical no que respeita ao alinhamento internacional, aos EUA, à NATO. Em certos momentos, chega a ser confrangedor pelo tom de cartilha e pelo amontoado de lugares comuns.
" Soares e Alegre juntos deixam fugir, nas intenções de voto da generalidade das sondagens, 10% a 15% dos votantes que José Sócrates congregou em 20 de Fevereiro. O que significa que Cavaco Silva, além de fazer o pleno do eleitorado de direita e centro-direita, vai captar um em cada três eleitores do PS em Fevereiro último. A velha esquerda de Soares e Alegre vale, hoje, bem menos do que a nova esquerda de Sócrates."
(José António Lima, Expresso, 15-12-2005)

15 dezembro 2005

[93] Debate 6

De 1 a 10:
Alegre, 5; Soares, 4.
Banal, impreciso, vago, incoerente.
Estou muito mal impressionado. Não éramos merecedores de ver este triste espectáculo na área do socialismo democrático.
(Portugal Real/Núncio)
[Declaração de interesses: votei em MS em 1991. Ainda não me arrependi.]

13 dezembro 2005

[92] 1/2

Cinco noites, cinco debates. Vamos a meio.
Nenhum muito entusiasmante. Todos muito sóbrios, excepto o terceiro, pela agressividade de Louçã, a roçar a demagogia (a utilização da criança ultrapassou o risco). Alegre filosófico e sereno. Soares disperso e vago. Louçã incisivo e áspero. Cavaco conciso e neutro. Jerónimo simpático e genérico.
De 1 a 10, atendendo a critérios de clareza, profundidade, urbanidade e coerência:
1.º - Alegre, 6 / Cavaco, 7;
2.º - Jerónimo, 6 / Soares, 5;
3.º - Cavaco, 5 / Louçã, 4;
4.º - Louçã, 6 / Alegre, 6;
5.º - Cavaco, 8 / Jerónimo, 6.
Faltam mais cinco.

12 dezembro 2005

[91] O triunfo das varas?

Rui Rio foi ofendido e (quase) agredido num bairro portuense, durante a última campanha autárquica.
Não vi (quase) ninguém indignar-se nem solidarizar-se, nem mesmo "o Presidente de TODOS os portugueses".
Rui Rio não é uma figura especialmente simpática.
Mas as ofensas a um político, em (pré-)campanha eleitoral, não são todas iguais? Ou há umas mais porcas do que outras?

[90] Velhas roupas, novos tons...

Muitos dos leitores de blogues ainda não perceberam que a política e as ideologias se afastaram muito dos paradigmas do século XIX.
Por exemplo, acham que o actual Governo Constitucional, apoiado pelo PS, tem algo a ver com o Governo de Maria de Lurdes Pintassilgo, sendo ambos "de Esquerda"?
[P.S. Aproveito para singelamente homenagear essa grande personalidade!]

[89] Quando acaba isto?

Começo a sentir-me enojado com as campanhas eleitorais em Portugal. Não bastou o que vimos e ouvimos nas legislativas ("caso Infante") e nas autárquicas ("caso Carrilho" e "caso Felgueiras"), agora ainda temos que levar com estes fait-divers auto-vitimizadores!
Condeno a violência, a intolerância e a arrogância, como condeno o populismo e a demagogia. Tudo resulta de uma cultura democrática e cívica muito pobre.

11 dezembro 2005

[88] "Não sou um homem de honrarias nem é uma missão pessoal, é uma questão de consciência."

Adivinhem quem fez a declaração acima:
- O Tino de Rãs (jovem ingénuo usado e ridicularizado pelos seus próprios correlegionários);
- Francisco Louçã (jovem democrata que subiu, com enormes dificuldades, a vida a pulso);
- Alberto João Jardim (que se aposentou como professor, carreira que já não exerce há mais de 30 anos);
- José Saramago (a beneficío de quem os dois governos ibéricos concederam um regime fiscal favorável);
- Cavaco Silva (a quem não se conhece fortuna pessoal);
- Jerónimo de Sousa (que não afina nenhuma máquina há mais de 20 anos);
- Paulo Portas (agraciado pela Administração norte-americana pelos altíssimos serviços em prol de uma guerra fora do quadro das Nações Unidas);
- Mário Soares (que viveu, desterrado e humilhado, em Paris e que cobra propinas modestíssimas no seu Colégio Moderno).
A resposta é muito difícil, só mesmo para pessoas com um QI acima do de Manuel Serrão.

[87] A memória das pessoas não é curta?

"Há dias, escondida na Página do Leitor do JN, uma carta de um cidadão chamado João Conlelas ajustava singelamente algumas contas.
A coisa passou-se assim: o doutor Mário Soares, sempre incensado pelas comitivas que o acompanham, havia dado, por estes dias, um ar de sua graça em Bragança, vociferando contra a interioridade e prometendo que, se fosse eleito Presidente da República, lá estaria na primeira linha da defesa das populações e do seu comboio. O leitor do JN esclarece que, por aquelas bandas, não houve grande entusiasmo com o palavreado e o folclore de campanha.
Ora, segundo João Conlelas, a explicação é simples: há uns anos, numa das presidências abertas de Soares por aquelas bandas, o então inquilino de Belém recebeu dos transmontanos um forte apelo para não deixar acabar o comboio que a CP ameaçava tirar-lhes. Tal como hoje, Soares prometeu, alto e bom som, que o comboio era do povo e do povo ia continuar. Na manhã seguinte, foi-se o comboio e Soares não voltou. Até há dias. Os transmontanos é que «ainda não esqueceram a traição», escreve o leitor.
Foi Soares quem disse, uma vez: «Em democracia, quem mente ao povo é réu de alta traição». Eu subscrevo. Quanto a ele, melhor será lembrar-se de que não andamos todos a ver passar os comboios"...
(Miguel Carvalho, A DEVIDA COMÉDIA, Visão, 6-12-2005)

[86] A 3-paper refreshment course (III)

«Convergência económica com a Comunidade/União Europeia:
-1985/1995: 27,8%;
-1995/2002: 4,9%.
«A economia portuguesa correspondia a:
- 55% da média da CE/UE, em 1986;
- 71%, em 1996;
- 74,4%, em 2002
Fonte: Eurostat.
Chega?

[85] A 3-paper refreshment course (II)

«Evolução dos salários REAIS (média):
- 1985/1995: 4,8 % ao ano;
- 1995/2002: 1,9% ao ano.
Agora querem saber quem é "amateus"? Não, não sou eu! É o insuspeito economista que foi Ministro do 1.º Governo do Eng.º Guterres, Augusto Mateus...»
(Portugal Real/Núncio)

[84] A 3-paper refreshment course (I)

Porque parece que anda muita gente distraída (ou de má-fé), entendo oportuno refrescar a memória de alguns leitores com factos e dados, não opiniões nem juízos de valor, relativos ao "passado", que parece que se tornou tema central das eleições presidenciais.
Para começar, e com a cortesia do autor, cito uns importantes dados coligidos por um participante do Expresso On Line, Globetrotter, em 10-12-2005:
«Conjuntura - média do crescimento do PIB dos países G7:
.1985-1995 (Cavaco): 3,07%;
.1995-2002 (Guterres): 2,82%.
Tanto barulho por 0,25%?
«Fundos comunitários (valores aproximados):
.1º pacote (1989-1993): 9.400 M€;
.2º pacote (1994-1999): 17.600 M€;
.3º pacote (2000-2006): 22.800 M€.
Por períodos de governação (total):
.Cavaco: 12.300 M€;
.Guterres: 22.795 M€;
.Barroso/Santana: 9.750 M€;
.Sócrates(até 2006):5.000 M€.
Médias por ano de governação:
.Cavaco: 1.230 M€;
.Guterres: 3.800 M€;
.Barroso/Santana: 3.270;
.Sócrates (22 meses): 2.275 M€».
Sabem fazer contas, não sabem?
Ou seja, com uma conjuntura ligeiramente mais favorável (em apenas 0,25%), Cavaco usufruiu (ao contrário da "voz corrente"), de apenas cerca de metade dos montantes de fundos comunitários.

[83] Um passeio alegre?

«Pessoalmente, acredito na "surpresa-Alegre". Não estou seguro, contudo, da vitória de Cavaco logo à 1.ª volta. Havendo 2.ª volta, e dada a perversidade do basfond político, [parece-me que] Cavaco [sempre] ganharia a Alegre por causa, justamente, dos votos de muitos socialistas e comunistas.
E digo que não estou seguro porque será muito desgastante o combate contra quatro, o que pode fazer perder algum do élan que lhe atribui, hoje, cerca de 55% dos votos. Apesar de tudo, e tendo havido já dois debates, (...) considero que Cavaco não perdeu eleitorado. Talvez Louçã tenha ganho algum a Soares e Alegre...»
(Portugal Real/Núncio)

10 dezembro 2005

[82] Estimulem o Pebble!

O meu grande amigo jpebble (que aproveito para saudar, lamentando a sua ausência), com quem me entusiasmei pela blogosfera e que me ajudou a lançar este conjunto de notas esparsas e imperfeitas, considera-me um conservador, embora "moderno". Eu devolvo-lhe, nas longas maratonas de riso e conversa, a simpatia, achando-o, com inteira justiça, um eminente e arejado jurista.
Pois bem, o Pebble - será pela idade, rapaz? - está a ficar, sendo de Esquerda, um homem, ele sim, muito conservador. Já o tenho advertido para a fragilidade dessa dicotomia "conservador/progressista", que tem muito que se lhe diga... Então, vocês acham, por exemplo, que o "aristocrático" Almeida Santos é progressista? Político mais cristalizado não há! Ou que o arrojado (e, muitas vezes, destrambelhado) Santana Lopes é conservador?
Agora, o Pebble diz-se inclinado a apoiar Soares, sentido de voto que muito respeito. Mas, de todos, esse é o voto mais conservador nestas Presidenciais! Atrevido e moderno seria o voto em Louçã ou Alegre. No primeiro, pela "agenda" que o BE e ele próprio elaboraram para a Esquerda (embora, uma Esquerda cosmopolita, elitista e moralista). No segundo, pela ousadia de avançar, sem apoios partidários e contra o Pai da Pátria, num discurso muito patriótico a que a Esquerda não está habituada. Isto, sim, é modernidade!
Considero, por outro lado, que o voto em Cavaco não é nem conservador nem progressista. Dadas a personalidade e o papel do ex-PM, é um voto claramente na pessoa e não um voto ideológico ou partidário.
Por tudo isto, estimado Pebble, acho que o menino acabou, acredito que inconsciente e involuntariamente, metido no "quadrado" claustrofóbico de que fala, com brilho, o Poeta...

[81] Balanço pessoal, mas transmissível.

«Sempre considerei que os 3 principais debates seriam:
1) Cavaco-Soares, por ser o último dos debates, por serem duas personalidades marcantes da III República e por se tratar de duas figuras que se conhecem profundamente dos tempos da coabitação política (e, talvez por isso, se detestem);
2) Soares-Alegre, por razões óbvias;
3) e, justamente, Cavaco-Louçã.
Ontem, confirmou-se o interesse. Foi o mais animado dos três já disputados, em parte pela atitude afrontosa e sarcástica de Louçã e, por outro lado, pela dinâmica e assertividade dos entrevistadores, embora Constança se tenha excedido, a ponto de ser tendeciosa (ao impedir Cavaco, várias vezes, de concluir ou mesmo de começar). No final, acho que Cavaco (que admitia que se saísse menos bem) se aguentou, embora um pouco tenso, passando suavemente pelas provocações do "adversário". Tanto é que, na segunda parte, Louçã foi muito mais moderado.
Os pontos menos fortes de Cavaco foram a imigração e os casamentos homossexuais, matérias em que Louçã é forte, dada a sua tendência demagógica de quem não governa.
Não me parece que o eleitorado "potencial" de Cavaco tenha ficado com menos vontade de votar nele, mas creio que Soares e Jerónimo devem preocupar-se seriamente com Louçã! A grande vantagem de Cavaco, a meu modesto ver, é que é objectivo, denso e intelectualmente sério. Louçã, que tem, de facto, um discurso fluente e atraente, utiliza - curiosamente (para quem quer ser a "Esquerda Moderna") - recursos da "Velha Política": é palavroso, irónico, demagógico.
Para o eleitorado cada vez mais esclarecido e menos sensível a "figuras de estilo", penso que a escolha não é difícil, até por uma razão suplementar que não vejo muito aduzida: ao Presidente da República não cabe ter uma "agenda executiva" de natureza ideológica. Personalidades como Louçã e Jerónimo, embora respeitáveis, não têm perfil suprapartidário e de representação nacional. É que, não esqueçamos, ser social-democrata ou reformista não impede, antes facilita, ser suprapartidário e congregador!»
(Portugal Real/Núncio)

09 dezembro 2005

[80] Parole, parole, parole...

«Nesta curiosa [mas obsessiva] evocação de Camões, Soares e Alegre revelam, no fundo, uma mesma percepção da política: uma actividade literária, retórica, palavrosa e vácua, que não acrescenta uma palha à nossa comédia trágica.»
(João Pereira Coutinho, in http://www.jpcoutinho.com/)

08 dezembro 2005

[79] A "traição" de apoiar um "fascista"

«(...) com este apoio a Cavaco Silva (que é fortíssimo, pelo simbolismo que transporta), Veiga de Oliveira mostra que a categoria de um homem não está na sua ideologia ou na sua fé, mas na honestidade intelectual com que as professa!»
(Portugal Real/Núncio)

[78] Ainda o culto da soberba

«No início do III Milénio, há ainda quem se arrogue confessar, em voz alta, desbragadamente, pelo éter fora, perante o silêncio culpado dos media sistémicos, a ignorância de presumir nos outros aquilo que o próprio demonstra. Cultura, dizia alguém, é aquilo de que nos lembramos depois de termos esquecido o que aprendemos. Há gente que não aprendeu nada.»
(Antonio Balbino Caldeira em 11/25/2005)

[77] Portugal pequenino

«Intutivo como ninguém, Soares pressente que, desta vez, não dá. Pena é que, na sua legítima melancolia de "fim de festa", suscite uma falsa questão que consiste num híbrido perigoso e insinuante do "quem não é por nós é contra nós", do Estado Novo, com as "farsas eleitorais" desse mesmo Estado Novo. É, seguramente e até agora, o pior momento da campanha do dr. Soares».
Já não sei o que é pior: se aturar a Carmelina Pereira pela octagésima primeira vez, se ser tomado por idiota por um respeitável, embora desgovernado, ancião...

[76] Eu durmo descansado, mas tirem esta tragicomédia do écran!

«Há dias, o dr. Soares esclareceu que aceitaria a legitimidade do prof. Cavaco, “desde que as eleições sejam limpas”. Como se admitisse a possibilidade de o prof. Cavaco ganhar por fraude. Como se estivéssemos em 1958».
(Rui Ramos, in "As forças do passado")
Leio e releio, belisco-me e receio estar num processo de pré-loucura.
"Aceitaria"? Mas houve alteração na presidência da Comissão Nacional de Eleições e eu não vi, não li nem ouvi? Está o candidato mandatado pela CNE para escrutinar o processo eleitoral?
"Eleições limpas"? Mas as eleições só são "limpas" quando os resultados nos agradam? E podem não o ser em Portugal, no ano de 2006 d.C., 32 anos após a alvorada do sonho num país mais justo e livre?
"Fraude"? Mas pode algum eleitor sancionar, com o voto, uma doutrina destas?

07 dezembro 2005

[75] Citações do mundo (3): pela madrugada dentro, o descanso do lutador

“Há homens que lutam um dia e são bons, há outros que lutam um ano e são melhores, há aqueles que lutam muitos anos e são muito bons, mas existem aqueles que lutam toda a vida e estes são imprescindíveis.”
(Bertold Brecht)

[74] Late night

“Há 2 tipos de pessoas: as que fazem coisas e as que ficam com os louros. Procure ficar no grupo das primeiras – há menos competição lá”.
(Indira Gandhi)
A qual, eleitores, vamos dar o nosso voto?

[73] Psicanálise de 5.ª categoria

Essa imagem [gasta de tão repetida] de "hirto, sisudo e complexado" é para enganar quem?
Mas agora nós escolhemos Presidentes da República (candidatos íntegros, ética e politicamente irrepreensíveis, competentes) ou perfis de um qualquer sítio de engate?!
(Núncio/Portugal Real)

27 novembro 2005

[72] Parece que se esqueceram da Sr.ª Justiça

" (...) O que nós, juízes, exigimos é ser tratados como aquilo que somos e representamos. E que fique isto muito claro: não é um desejo negociável, mas uma exigência incontornável.
" (...) Venham pretensos opinadores e ouçam isto de vez: os juízes, como todos os cidadãos, não estão nem querem estar acima da lei; mas os juízes, como todos os titulares dos órgãos de soberania, não aceitam estar sem ser de igual para igual com os restantes órgãos de soberania".
(J. M. Nunes da Cruz, Presidente do STJ, VII Congresso dos Juízes Portugueses, 24-11-2005)
Pois, parece que os engenheiros se esqueceram que os tribunais são um órgão de soberania e pilar essencial do Estado de Direito.
É assombroso ver grupelhos de jovens recém-licenciados, arregimentados para gabinetes ministeriais por critérios noturnos e convicções côr-de-rosa, a legislarem sobre férias judiciais, regime da aposentação ou sub-sistemas de saúde, numa sanha contra a essência do regime: a separação de poderes e a independência dos órgãos.
E não se pode exterminá-los?


[71] As plumas caprichosas

"Como [Américo] Tomás, Soares anunciou que estava cansado e que bastava de responsabilidades institucionais. Como Tomás, Soares sabe que é o último elo da continuidade, aquele que quer impedir o reconhecimento do óbvio. Como ao lado de Tomás, também ao lado de Soares estão as forças apostadas na continuidade, que querem fechar a última janela de oportunidade para a correcção de rota, desde que isso lhes prolongue por alguns dias os privilégios que apropriaram e que não justificaram. Compreende-se o desespero, mas não se pode ignorar que foi Mário Soares, no fim do seu segundo mandato, em 1995, quem entregou (de modo deliberado e sistemático, mas inglório) todos os poderes institucionais aos protagonistas do Partido Socialista e que foram eles que conduziram a sociedade, a economia e o sistema político ao ponto de ruptura actual. Entregar ao mesmo pecador a tarefa da redenção e a atribuição das penitências não é só uma imprudência, é uma inutilidade".
(Joaquim Aguiar, in Atlântico, 21-11-2005)
Por vezes, as forças conservadoras estão, por muito paradoxal que pareça, numa certa "Esquerda-champanhe e caviar", a quem não convém nada a perda de privilégios "adquiridos". Depois, há também uma certa "Direita-trauliteira" a quem convém muito, como do pão para a boca, a subsistência destes elementos anacrónicos e circenses.

26 novembro 2005

[70] Early evening

«Há tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para plantar e tempo para arrancar o que se plantou; tempo para matar e tempo para dar vida;
(...) tempo para a guerra e tempo para a paz».
(Eclesiastes, Antigo Testamento)

[69] Uma questão de sabonete para a pele...

Nem os eleitores vão, felizmente, atrás de conceitos indeterminados e retórica parlamentar, a julgar pela sondagem do "Público" desta semana.
Veja-se bem em que lugar, nas qualidades que os portugueses querem ver no Presidente da República, aparecem a dita sensibilidade (e, já agora, a provecta simpatia).
Ao invés, as duas características mais comummente apontadas a CS são a 1.ª e 3.ª votadas.
Recordo:
1.ª - honestidade (58%);
2.ª - bom senso (41%);
3.ª - competência técnica (33%);
4.ª - capacidade de liderança (32%);
5.ª - experiência (31%);
6.ª - sensibilidade aos problemas sociais (31%);
7.ª - simpatia (14%).

[68] Insensível, gritou ele!

«Soares considera que Cavaco Silva é um "homem com talento e grande conhecimento das coisas económicas", mas falta-lhe "sensibilidade social para defender os direitos, garantias e liberdades dos portugueses num momento em que isso possa estar em causa", (...) sublinhando não acreditar que Cavaco Silva esteja em condições para promover um "desenvolvimento sustentável, o qual está dependente de uma forte componente social e ambiental"».
(DN, 26-11-2005)
Pese embora o talento económico, não terá sensibilidade social. Mas não foi o seu governo, com MS na PR (sancionando muitas decisões políticas), que se viveram os melhores anos de crescimento economico e social e desenvolvimento humano?
Vejam no: http://photos1.blogger.com/blogger/6825/185/1600/HDI.jpg (cortesia do Pulo do Lobo).
Esta discussão sobre as três décadas da III República não estava já encerrada? Ainda alguém tem dúvidas?

[67] Ser do contra é não ser

«Estando adquirida essa convicção [de que Cavaco Silva ganhará], apesar dos silêncios e do carácter vago das posições de Cavaco, é a débil performance de Soares entre o eleitorado de esquerda (e, particularmente, do PS) que parece mais relevante. Soares faz lembrar Walesa - que, de herói nacional polaco, se transformou numa figura historicamente anacrónica. Os clamorosos erros estratégicos da sua campanha, cuja única e suposta originalidade se resume a ser contra Cavaco, têm tido um efeito de boomerang que favorece não apenas Alegre como o próprio candidato da direita. Mas esses erros fragilizam também a direcção do PS, por mais sibilinos que tenham sido os cálculos políticos de Sócrates, junto do eleitorado socialista.
Entre o triunfo anunciado de Cavaco (e sabe-se como é forte a atracção de estar com os vencedores) e o pesado anacronismo da candidatura de Soares, percebe-se que o eleitorado de esquerda não motivado por candidaturas meramente partidárias (Jerónimo ou Louçã) aposte no romantismo "positivo" de Alegre. Ser apenas "contra" já não é mobilizador».
(Vicente Jorge Silva)
O que lamento, acompanhando aqui VJS, é que tudo isto era escusado. MS é uma figura que, pelo seu notável passado político (embora com mais relevo para o regime nos anos 70 do que nos seguintes), merecia ser preservada e deveria ter-se preservado. Até para não se tornar, como o jornalista bem nota, no Walesa português (ou, de uma outra forma, no Mitterrand lusitano) ...
Mais uma vez se demonstra aqui que recorrer sempre à mesma figura nacional empobrece a história da democracia, do Estado e do próprio visado. Queima tudo à volta!
P.S. Uma nota final: essa necessidade de vir (in)esperadamente a terreiro contra Cavaco Silva resulta do quê? Já alguém demonstrou (incluindo o Pai da Pátria) que perigos advirão da vitória do "simples economista"?

[66] Percebem?

"Mas esses ataques [a Cavaco Silva] já não se justificam no plano político, sobretudo a partir do momento em que Mário Soares conseguiu o essencial, que é a realização de um debate televisivo com Cavaco Silva", afirmou o responsável, adiantando que o candidato já concordou com a mudança estratégica. O frente-a-frente entre Mário Soares e Cavaco Silva vai decorrer a 20 de Dezembro, sendo transmitido pela RTP".
É triste ver um ex-Presidente da República a mendigar um debate. Afinal, a estratégia do adversário mantém-se inalterada. Aquela que era supostamente brilhante é que vai ser mudada. E, provavelmente, o debate não alterará coisa nenhuma... Tanto barulho por nada!

24 novembro 2005

[65] Quando não há escolha

"Cavaco Silva não é D. Sebastião, graças a Deus. Mas na presente situação do país, do desemprego à (in)justiça, da chacota de que somos objecto no estrangeiro – que eu, infelizmente, já testemunhei – a necessidade de regeneração da vida pública, não nos podemos dar ao luxo de não eleger Cavaco Silva como Presidente de todos os Portugueses".
(Miguel Beleza)
A política é a arte do possível, terá dito alguém que recordo de memória. Não endeusemos, mas também não ridicularizemos os candidatos. São estes e não outros, que não quiseram ou não souberam avançar. Mas, que ninguém tenha dúvidas, há um que, não sendo um mito ("o nada que é tudo") nem um "vulto da História", é o que melhor assegura o exercício rigoroso, isento, suprapartidário, nacional, daquela arte.

[64] O lado certo

« (...) apesar de a maioria dos portugueses achar que é Mário Soares quem tem melhor hipóteses de contrariar a vitória de Cavaco Silva, a situação é-lhe muito pouco propícia. À parte a possibilidade de roubar eleitores ao próprio Cavaco Silva, que não pode ser excluída (Cavaco parte de um ponto tão alto que dificilmente poderá subir, apenas descer), o potencial de crescimento do eleitorado de Soares à esquerda parece depender em grande medida da captação de pessoas que, a esta hora, já serão dificilmente convertíveis:
- os que já dizem à partida que não tencionam votar, especialmente o eleitorado desmobilizado do PS;
- e os eleitores de Manuel Alegre, maioritariamente compostos por pessoas que declaram tencionar votar em Alegre apesar de acharem que Soares é quem tem hipóteses de obter um melhor resultado contra Cavaco Silva, o que mostra que a argumentação "estratégica" - o voto em Soares como única maneira de derrotar Cavaco - não deverá ser suficiente para os converter.»
(P. Magalhães, in Margens de Erro)
Resta saber, caro Pedro, o que seria preciso fazer para "converter" os eleitores a que se refere. Não sejamos ingénuos! Há muita criatividade a borbulhar nesses lugares geométricos do poder... Ou a "visionária" entrevista, dada hoje à estampa, será mero acaso? Talvez alguém esteja também a querer colocar-se "do lado certo da História"... Mas creio que já vai atrasado!

[63] Pensamento do dia

"Pensa como pensam os sábios, mas fala como falam os homens simples".
(Aristóteles, séc. III a.C.)
Mais importante do que ser Presidente da República ou Pai da Pátria é ser um Homem simples...

[62] Uma questão de confiança

« (...) como secretário-geral do Partido Socialista, Sócrates diz que Soares foi sempre o seu candidato à presidência. Parece que não foi. Manuel Alegre diz que não foi e que Sócrates falou com ele primeiro. As pessoas podem julgar, à primeira vista, que isso não tem importância e que se trata apenas de uma birra no meio de um partido onde já se falou, sucessivamente, de Guterres, de Vitorino e de Jaime Gama. Acontece que tem importância e que não é apenas uma birra de adolescentes para eleger o chefe de turma. Não pelo apoio do PS a Soares que, como se sabe, é parcial e conflituoso, embora oficial. Mas pela palavra dada por José Sócrates e pela forma como vai ser vigiado a partir de agora pelos portugueses que querem saber "como é que convive com esse desmentido", feito por Manuel Alegre».
(F. J. Viegas, in JN, 24-11-2005)
Na linha do que dissemos [61.1]. E Mário Soares tem tudo a ver com isto, por mais que diga que não. Ou alguém acredita que ele não sabe que Alegre foi estimulado/convidado a candidatar-se?

23 novembro 2005

[61] Duas faces bem bochechudas

Afinal, o sábio não tem opinião (ou não quer exprimi-la) sobre duas questões tão essenciais como estas:
1. Quem fala verdade? Sócrates ou Alegre? Dadas as versões completamente contraditórias, não podem ambos falar verdade. E, mentindo um, o pai da Pátria fica manchado também.
2. Convoca ou não convoca um hipotético referendo à regionalização (independentemente da sua opinião pessoal)?
Pois, quando convém usa-se a estratégia que se censura nos adversários... Claro que, sendo usada pelo Senador, ela já é razoável e inteligente, sancionada pela mais fina comunicação social.
Não há paciência para tanta incontinência!

[60] Arrogância cultural anacrónica

«VPV acaba por reconhecer que Soares vem a estas eleições representar um "mundo que nós perdemos", para utilizar o título de um historiador inglês. E curva-se respeitosamente perante esse exercício ("é bom que ele exista"). Nada disto, por muito comovente que seja, explica politicamente a "necessidade" da sua candidatura. Reduzi-lo a uma função ornamental democrática, a crer na prosa destes dois ilustres cronistas, é pouco para Soares. É por isso que ele vagueia, nesta campanha, à sombra do "plebeu" que, mesmo com um sorriso "come merda" (Mesquita dixit), é o verdadeiro aristocrata destas eleições».
# posted by João Gonçalves : 20.11.05
Com a devida vénia, não posso deixar de reproduzir um excerto particularmente brilhante deste blogueur que se vai afirmando consistentemente (e que tenho o prazer de conhecer pessoalmente, se bem que seja aqui irrelevante).
Contra toda a elite de salões empoeirados e de manuais de estilo boboneanos (arregimentando escribas frustrados e intelectuais complexados), o filho do gasolineiro (a quem presto a minha homenagem profunda, com o respeito e orgulho que tenho pelas minhas próprias origens) vai impor-se! E todo o preconceito será castigado...

[59] Arrogância social revisitada

"Mas há, infelizmente, uma perversão social que divide o país em duas raças. Os que têm a dignidade da sua condição e os que se envergonham dela."
(Miguel Torga)

Há, hoje, Mestre, uma terceira raça: os soberbos para com aqueles que não têm (supostamente) a sua condição... Ignoram que a dignidade humana reside no carácter, não na carteira!

[58] De noite, para todos os dias...

"Il più bello dei Mari è quello che non navigammo.
"Il più bello dei nostri figli non è ancora cresciuto.
"I più belli dei nostri giorni non li abbiamo ancora vissuti.
"E quello che vorrei dirti di più bello non te l'ho ancora detto..."
(Nazim Hikmet, 1942)
Pelo Sonho é que vamos... Olhemos em frente e para cima, sem medo. O medo corrói a alma! Apostar sempre no mesmo cavalo é cómodo e prudente, mas a História faz-se de audácia e visão. Às vezes, de contradição... Ou não?

[57] Poesia, ao cair da noite...

"Sempre a imagem das coisas que nos pesa...
As mesmas tintas da Alegria,
O mesmo claro-escuro da Tristeza...
Sempre no mesmo corpo a mesma doença: a vida!
Sempre a mesma elegia em sílabas de mágoa...
Sempre o mesmo perfil de serra empedernida,
Onde o inverno, a chorar, desenha espectros de água".
(Canção da Monotonia, Teixeira de Pascoaes)
Vamos sair desta modorna, abanar consciências e ousar avançar?

[56] Citações do mundo (2): mais, em tempo de campanha

"Talking and eloquence are not the same: to speak and to speak well are two things. A fool may talk, but a wise man speaks." (Ben Johnson)
*
Em campanha eleitoral (e não só), fala-se tanto e diz-se tão pouco... Depois admiram-se de o silêncio ser a melhor estratégia!

[55] Citações do mundo (1): efeitos secundários do poder

“O poder torna as pessoas estúpidas e muito poder torna-as estupidíssimas.”
(R. Kurz)
Vamos perceber isto duma vez? Não basta o que basta?

21 novembro 2005

[54] Política à portuguesa...

Já calculava que, dado o quadro pré-eleitoral, a campanha iria ser dura e áspera. Basta recordar o cenário que o bas-fond político criou ("todos contra um").
Mas, de facto, ainda sou muito ingénuo...
O que já se viu e ouviu mostra que nada se aprendeu com a campanha eleitoral das legislativas de Fevereiro passado. E tende a piorar!

[53] Aplaudo de pé!

Com a licença do autor, reproduzo aqui este post, que subscrevo inteiramente (Paulo Gorjão, in www.bloguitica.blogspot.com).

ARROGÂNCIA CULTURAL
[1396] -- «[C]onvém ter na Chefia do Estado alguém que conheça a História e a cultura do nosso país, alguém que conheça Os Lusíadas, o nosso poema máximo», referiu
Mário Soares (DN, 21.11.2005).
1. Leu o artigo de
Vítor Bento?
2. Alguém consegue explicar qual é a razão objectiva que impõe a obrigatoriedade de ter alguém na Presidência da República que conheça Os Lusíadas? A Ilíada?
3. Cavaco Silva come bolo rei com a boca aberta. Cavaco Silva não leu as obras clássicas. Já todos percebemos que, tal como a maioria dos portugueses, Cavaco Silva não nasceu num berço de ouro. É a vida.E não tendo nascido num berço de ouro -- i.e. não sendo descendente da casta aristocrática preparada para nos governar -- como é que ele ousa usurpar o trono ao seu legítimo herdeiro?Em suma, como é que um reles provinciano de Boliqueime, que subiu na vida à custa do seu próprio esforço (imagine-se, tamanha ousadia...!), admite candidatar-se à Presidência da República?
4. Esta arrogância cultural é um assunto que me toca pessoalmente. Tal como no caso de Cavaco Silva, os meus pais também são pessoas modestas. Na minha infância não aprendi a tocar piano, nem fui estimulado a ler os clássicos. Inevitavelmente, ou talvez não, fui um aluno mediano no secundário. Sem ter alcançado as médias de acesso ao ensino superior público, ingressei no ensino superior privado, por pressão dos meus pais. Foi apenas nessa altura que adquiri o gosto pelo estudo e que me esforcei por ser acima da média em alguma coisa.Passei muitas noites a estudar e li centenas de livros técnicos (e não os clássicos...). Paralelamente, fiz muitas directas para ajudar os meus pais na sua actividade profissional.Por outras palavras, aquilo que alcancei até hoje não o devo ao meu apelido sonante, ou às minhas origens sociais privilegiadas. Ocasionalmente, sou capaz de começar a falar quando ainda tenho comida na boca e, eventualmente, sou capaz de colocar os cotovelos em cima da mesa. Horror dos horrores, sou capaz de fazer coisas ainda piores. Nunca li Os Lusíadas de uma ponta à outra. Tenho conhecimentos muito rudimentares sobre música clássica e não percebo absolutamente nada de poesia.Tudo isto significa que não posso ascender socialmente em Portugal? Que não vou ser tolerado pela elite aristocrática e que nunca poderei vir a ser Primeiro-Ministro ou Presidente da República?Não acha que há aqui qualquer coisa profundamente errada?
5. Leu o artigo de
Vítor Bento?
# posted by PG : 01:01

16 outubro 2005

[52] Para a próxima, há mais...

Ao contrário do que já li e ouvi, não acho que o PS tenha sido penalizado (e possivelmente volte a ser em breve[1]) por causa das medidas que o Governo tomou nestes 7 meses.
Em primeiro lugar, porque não há aqui ímpeto reformista de relevo, mas apenas medidas avulsas de cariz marcadamente financeiro (ou seja, cortes nas despesas: subsistemas públicos de saúde, sistema retributivo da FP, regime da aposentação, etc.).
Em segundo lugar, porque há um apoio maioritário, entre as elites e os eleitores, a essas medidas (não são, por isso, nada impopulares, a não ser entre os visados, naturalmente).
Em terceiro lugar, porque tais medidas são o aprofundamento de outras tomadas pelo XV Governo Constitucional (apenas momentaneamente "congeladas" pelo XVI Governo Constitucional) e, daí, não serem propriamente surpreendentes ou inovadoras.
Ao contrário, acho que uma boa actuação ético-política do XVII Governo Constitucional teria dado ao PS um resultado eleitoral muito razoável.
Tenho a forte convicção que a derrota estrondosa (lembro que, em 18 capitais de distrito, o PS só preside a 6, das quais apenas Braga e Faro têm relevância nacional e que, dos 10 principais concelhos do país[2], o PS só preside a 3) se deve a 3 causas da maior importância:
1. O modelo de exercício do poder, arrogante, acintoso e tenso (bem diferente do modelo de pares como o espanhol e o sempre invocado sueco).
2. As escolhas dos candidatos autárquicos, nalguns casos (Lisboa, Sintra, Felgueiras, Gondomar, Setúbal, Oeiras, Cascais) risíveis e indizíveis.
3. As escolhas de titulares de cargos públicos e de administradores de interesses públicos, quase obscenas (CGD, TC, GALP, AR, etc.).
Em suma, depois de ter aprendido da cartilha de Tony Blair ("Manual de Campanha"), Sócrates está pronto a lançar o seu próprio manual: "Como desbaratar um capital de confiança ímpar em sete meses, apenas pela avidez do poder absoluto"...
[1] não o partido, mas o candidato oficial do partido.
[2] Lisboa, Sintra, Gaia, Porto, Loures, Cascais, Amadora, Braga, Almada e Coimbra.

[51] O verdadeiro Estadista

A maior parte de analistas e até eleitores comete o mesmo erro.
A eleição presidencial não é uma eleição de cariz partidário (aliás, já nem as autáquicas o são, como se vê pelo forte aumento dos candidatos independentes). Qualquer cidadão idóneo, maior de 35 anos, com apoios partidários ou sem eles, pode (e no actual contexto histórico-político) deve candidatar-se.
Temos que analisar todas e quaisquer candidatos presidenciais pelo seu valor pessoal, cívico, ético e moral. Aqui não relevam (ou não deveriam relevar) aspectos político-partidários. Trata-se do "mais alto magistrado da Nação" (desculpem o chavão), aquele que nos representa a todos, marxistas, neoliberais, democratas-cristãos, socialistas. À representação do Estado, por isso, não deve importar aspectos ideológicos puros, mas critérios de ética e civilidade.
Dito isto, só quem estiver de má-fé ou for diminuído não reconhece que, nesta eleição, e à luz do que defendi, só há um candidato credível e um verdadeiro Estadista.Cabe a cada um perceber qual é...
(Portugal Real/Núncio)

27 setembro 2005

[50] Tende (ainda mais) piedade, Senhor!

Portugal está muito pouco recomendável para se viver...
A mais baixa natalidade da U.E. (e arredores), a mais alta taxa de mães trabalhadoras da OCDE (e, provavelmente, arredores), uma produtividade industrial e agrícola rídicula, um nível baixíssimo de formação científica e tecnológica, excesso de intelectuais, jornalistas e juristas (eu, pecador, me confesso e peço absolvição), escolas e hospitais degradados e degradantes, um desprezo chocante por velhos e pessoas com deficiência, uma política ambiental e desportiva deprimente, uma classe política inominável, ... desculpem, não me peçam mais!

[49] Piedade, Senhor!

"Com tão pungente piedade, bem se percebe a única dúvida que terá assaltado a ex-fugitiva na PJ do Porto: 'o que é que eu estou aqui a fazer? Não era isto que estava combinado. Eu tenho é que ir para o Tribunal de Felgueiras'. De tudo, fica a dúvida se o país anda a gozar connosco. Se acha que somos todos tontos ou mentecaptos. E a certeza de que casos destes, como de outras negociatas e afins, são devastadores para o regime".

Mário Melo Rocha, "Diário Económico", 27-09-2005 (com a devida vénia)

16 setembro 2005

[48] Precisam de mais?

Há três razões para, decidida e justamente, desvalorizar a impulsiva e anacrónica candidatura presidencial de MS:
1. a forma como (des)tratou MA, mais do que um correlegionário, um amigo (?) de mais de 40 anos - na política, como no resto, NÃO vale tudo e esse facto marcará toda a campanha;
2. a mensagem incompreensível e um pouco constrangedora que a candidatura transmite ao regime - de falta de estadismo (ao usar um jornalista e um programa televisivo para apresentar a candidatura), de ausência de candidatos, de pobreza de discurso político;
3. o sinal que o próprio eleitorado emitiria se elegesse MS pela 3.ª (!) vez - o "Rei Só Ares"...

04 agosto 2005

[47] Madurezas...

Animado pelo anúncio da recandidatura de Mário Soares à Presidência da República, o nosso querido Eusébio já confirmou o seu regresso à Selecção a tempo de participar no Mundial de 2006 ou 2010.
Por seu turno, António Calvário começou a ensaiar o tema que vai levar ao Festival da Eurovisão de 2007, isto porque Portugal não participa na próxima edição.
No caso de Rosa Mota, a atleta portuense reconheceu não ter tempo para se preparar devidamente para os Jogos Olímpicos, a disputar na China, em 2008, pelo que resolveu adiar o seu regresso para os Jogos de Londres, em 2012, onde participará na Maratona, nos 10.000 metros e na marcha.
Finalmente, Manoel de Oliveira confidenciou que foi convidado a inaugurar o primeiro cinema na Lua, em 2023.
(email que circula na net, adaptado)

01 agosto 2005

[46] A malta é porreira!

Fernando Gomes na GALP e Armando Vara na CGD: dois exemplos de excelência na administração pública que galvanizam!
*
Celeste Cardona e Norberto Rosa permanecem na equipa gestora da CGD: dois exemplos de fraternidade político-partidária que emocionam.

26 julho 2005

[45] Marchas populares fora de época

A corrida presidencial ameaça tornar-se numa marcha popular de baixa estação: os manjericos murcharam e os pregões são histéricos.
Sejamos honestos. A hipotética candidatura de Mário Soares não pode ser séria. Não dignifica nem o próprio, nem o PS, nem o regime.
Soares foi Presidente da República durante 10 anos. Anunciou, no final, que terminara a sua carreira política, o que faz sentido. Foi tentado, depois, pelo convite inédito para ser eurodeputado. Arrastou-se durante cinco anos pelo hemiciclo, após a embaraçosa falsa partida. Voltou a anunciar que fechara o seu ciclo político.
Não é, por isso, o facto de ir completar 81 anos em Dezembro que o diminui ou incapacita. Tão-somente a exigência de coerência e de recato! Se até em democracias mais emergentes o regresso de ex-presidentes é visto com censura, imagine-se a situação num Estado da União Europeia...
Por outro lado, o que fará regressar um excelente cidadão com tão provecta idade à contenda eleitoral? Não consegue o PS renovar-se? Não há outro militante ou simpatizante capaz de congregar mais de metade dos portugueses? Os socialistas são só soarismo e maçonaria?
Last, but not least, a democracia ... Reciclar políticos não é forma de renovar o regime e fortalecê-lo, dando-lhe confiança. Acho até lamentável, desse ponto de vista, a pré-candidatura de Soares.
Há socialistas de enorme categoria pessoal e política. Venham eles!

12 maio 2005

[44] Os sapatos de Mia Couto

O escritor moçambicano, curiosamente licenciado em Medicina e Biologia, fez uma oração de sapiência, a 7 de Março deste ano, na abertura do ano lectivo do Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique. Excertos desta oração foram publicados no Courrier Internacional, n.º 0, de 2 de Abril, donde, com a devida vénia, destacamos:

"Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de descalçar-nos. Eu contei Sete Sapatos Sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico:
- Primeiro Sapato: a ideia de que os culpados são sempre os outros;
- Segundo Sapato: a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho;
- Terceiro Sapato: o preconceito de que quem critica é um inimigo;
- Quarto Sapato: a ideia de que mudar as palavras muda a realidade;
- Quinto Sapato: a vergonha de ser pobre e o culto das aparências;
- Sexto Sapato: a passividade perante a injustiça;
- Sétimo Sapato: a ideia de, para sermos modernos, termos de imitar os outros."
Dedico esta notável piece of wisdom a todos aqueles que, comigo, partilham estas inquietações filosófico-civilizacionais e aos que, legitimamente, receiam que alguns dos meus posts se possam confundir com piedosas cartas de intenções ou aulas professorais de Ética Cristã. Tentarei que tal nunca ocorra, até porque não pretendo evangelizar o mundo...
By the way, os sapatos que mais precisam de limpeza são, a meu ver, o segundo, quinto e sexto. Que vos parece, caros leitores?

[43] O pastor do rebanho

"Já não há ovelhas tresmalhadas no rebanho do Senhor porque agora temos um Pastor alemão."
(email que circula na net)

06 maio 2005

[41] Rugido final

No último minuto, quer da primeira parte do tempo regulamentar, quer do prolongamento, o leão rugiu... até se ouviu em Moscovo!
No futebol, não há necessariamente justiça; há emoção, garra, força, jeito... e sorte. A equipa holandesa também merecia estar na final da competição, mas os portugueses não deixaram.
É muito curioso como, no meio de tantos problemas económicos, financeiros, organizativos e até éticos, os clubes portugueses têm "pedalada" para aguentar a concorrência de alemães, espanhóis, ingleses, holandeses ou russos!

[40] Liberalizar e socializar (II)

Se assim não fosse, praticamente não haveria crimes públicos ou semi-públicos. Grosso modo, apenas se penalizariam os crimes particulares, em nome da autonomia e individualidade de cada cidadão-vítima, sendo os crimes (semi)públicos - nesse cenário - quase residuais, apenas para punição dos crimes contra o aparelho do Estado (subversão, traição, etc.).
E por alguma razão não é isso que (quase) todos defendemos...

04 maio 2005

[39] Justiça de férias

A Justiça é um dos pilares do Estado de Direito, sem o qual tudo desaba: a Economia, a Segurança, a Educação, a Cultura.
Em Portugal, ela não vai de férias no Verão, tirou-as há muito tempo e tarda em voltar... Por isso, não creio que, ao reduzir para o mês de Agosto o período de prática exclusiva de actos jurisdicionais urgentes, a recuperemos. Oxalá fora a solução!
Mais uma vez, adoptam-se medidas precipitadamente, a partir de "misconcepts". Férias judiciais (dos tribunais) é coisa bem diversa de férias dos operadores judiciários (profissionais). A actividade jurisdicional é, supostamente, reduzida para permitir que os magistrados, os oficiais de justiça e os advogados ponham o seu trabalho em dia, longe da voragem do quotidiano. Se magistrados e oficiais de justiça gozam mais dias de férias do que aqueles a que têm direito, sem fazerem rotativamente turnos de serviço, é porque os respectivos conselhos (CSM, CSMP e COJ) o permitem. Tais conselhos têm competência para organizar, orientar, vigiar e sancionar. Se não o fazem, é por omissão de dever...
Quantas sentenças de especial complexidade técnico-jurídica são elaboradas, quantas leituras de "refreshment" são feitas, quantos processos são recuperados durante as férias judiciais?
Parece-me um equívoco equiparar uma carreira especial como a magistratura às carreiras gerais da Função Pública. Mesmo nos Estados em que não há férias judiciais (Alemanha, Holanda, Finlândia, Suécia, entre outros), os magistrados têm direito a um maior período de férias (que chega a ser de quarenta dias úteis). Pretende-se aqui criar o "juiz-burocrata" ou "juiz-funcionário" (com horário "nine to five", com descanso aos fins-de-semana e férias no Verão), em vez do "juiz-julgador" e do "juiz-soberano"?
Será que, a seguir, vão decidir colocar escolas e universidades em laboração contínua? Para quando, então, idênticas medidas para os parlamentares?

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