Terapia política. Introspecção psicossocial. Análise simbólica.

22 abril 2006

[233] Os blogues dos outros: causas com causa

«(...) Na verdade, não faz sentido que, havendo serviços públicos de educação e de saúde gratuitos, pagos pelo orçamento do Estado, aqueles que preferem serviços privados sejam beneficiados com o desconto dessas despesas para efeitos de dedução fiscal (com limites bastante generosos), o que se traduz numa considerável "despesa fiscal".
«Ainda por cima, trata-se em geral dos titulares de rendimentos acima da média, não poucas vezes caracterizados por uma elevada evasão fiscal (industriais e comerciantes, gestores, profissionais liberais, etc.). Duplo privilégio, portanto.»
(Vital Moreira, Causa Nossa, "Para reduzir o défice das contas públicas (1) e (2)", 21 e 22-4-2006)

21 abril 2006

[232] Poesia do mundo: Portugal, é a hora!

Mas de repente voltas
numa dor de esperança sem razão de ser

Da sua indiferença
agressivamente as coisas saem

Sentimo-nos cercados
ameaçados pelas coisas
e agora lamentamos o tempo perdido
a dispô-las a nosso favor

Porque é tempo de romper com tudo isto
é tempo de unir no mesmo gesto
o real e o sonho
é tempo de libertar as imagens as palavras
das minas do sonho a que descemos
mineiros sonâmbulos da imaginação

É tempo de acordar nas trevas do real
na desolada promessa
do dia verdadeiro
(Alexandre O´Neill: 1924 - 1986, "Poesias Completas 1951/1981", INCM, Lisboa)

[231] Citações do mundo: what do we need today?

"We do not need more intellectual power, we need more spiritual power.
We do not need more of the things that are seen, we need more of the things that are unseen."
(Calvin Coolidge)

19 abril 2006

[230] A fama vem de longe...

Moisés, lendo os mandamentos ao seu Povo:
- Nono mandamento: não desejarás a mulher do próximo!
Ouve-se, então, um grande clamor do Povo, indignado.
Moisés esclarece:
- Calma, isto é o que a lei diz. Esperemos para ver o que diz a jurisprudência...

[229] A verdade da mentira

«O aumento da receita fiscal não foi suficiente para impedir um novo agravamento das contas públicas. Com efeito, a despesa corrente primária continuou a crescer a taxas muito elevadas – na ordem de 7 por cento –, reflectindo sobretudo o crescimento das transferências sociais, com destaque para as despesas com pensões. As despesas com pessoal registaram igualmente um crescimento significativo, explicado quer pelo fim do congelamento parcial da tabela dos vencimentos quer pelo aumento do número de funcionários públicos.»
("A Economia Portuguesa em 2005", in Boletim Económico Primavera 2006, vol.12, n.º 1, p. 10)

18 abril 2006

[228] Antes de deitar: "thought-provoking quotes"

"Politicians cannot help being clowns. Political activity is essentially absurd. The hopes held for it can be high, the results tragic, but the political art itself must lack dignity: it can never match our ideals of how such things should be done."
(D. R. Horne, escritor australiano, 1921-)

[227] Exclusivamente juízes e deputados!

«Ainda no âmbito do exercício de cargos público, Jorge Miranda considerou que "também não se devia permitir que um juiz de carreira exerça qualquer cargo de nomeação governamental", dando como exemplo a nomeação do juiz Alípio Ribeiro para director nacional da Polícia Judiciária.»
(Última Hora, Público On Line, 18-4-2006)
*
Passando por cima da imprecisão relativamente ao magistério de Alípio Ribeiro (que é magistrado do Ministério Público e não da magistratura judicial), folgo em saber que há mais quem pense assim. Apenas recordo o que aqui se disse no post [219]: "Modelo nórdico ou latino?" (sobretudo no ponto 2.).
ADENDA: Também estou, por sinal, inteiramente de acordo com Jorge Miranda quando advoga o exercício em exclusivo do mandato de deputado. Se quiserem, há muito trabalho para ser feito!

17 abril 2006

[226] Late evening: who's the boss?

Eduardo Pitta, no seu interessantíssimo "Da Literatura" [declaração de interesses: sou leitor assíduo] - para além de se juntar às vozes, que acompanho há anos, contra a existência de um Ministério da Cultura - anuncia que a Ministra acaba de concretizar uma autêntica "revolução".
Penso, lamento desapontá-lo, que labora num erro.
Salvo o devido respeito pela titular da pasta, não lhe cabe a paternidade (no caso, a maternidade) de tal empreitada, que - globalmente - considero oportuna e adequada, embora os riscos não sejam irrelevantes. Nem estou seguro de que tivesse condições para a fazer ela mesma, dadas as fragilidades que o próprio Eduardo reconhece.
A revolução a que se refere é a que o PRACE (Programa de Reforma da Administração Central do Estado) se prepara para fazer nos próximos meses. E, que eu saiba, nada disto tem o dedo da Ministra, como não terá o de outros respeitáveis ministros [há uma comissão, presidida formalmente pelo Prof. João Bilhim, com a sombra tutelar de José Sócrates e António Costa. Aliás, quer essa comissão, quer as subcomissões ministeriais (uma para cada dois ministérios, se não erro), têm instruções para não ceder às pressões a que, na execução da macro-estrutura já definida pelo Professor, possam ser sujeitas pelos vários ministros e directores-gerais].
Acabo com uma constatação, para que Eduardo Pitta entenda porque digo o que digo: lembra-se da recente polémica sobre as relações internacionais da PJ? Meu caro, tem tudo a ver com isso! E se um ministro com a pasta da Justiça pôde pouco na "revolução", que poderá a Ministra? Para bom entendedor...

[225] Ursos e raposas

"A raposeta continua no seu jogging, deslumbrado pela governação por actos e sessões de relações públicas, mas o reino animal é demasiado complicado para a “treta” esconder certas garras, e certos dentes."
(JPP, O Abrupto, 17-4-2006)
*
Nem mais! Mas um dia o "povurso" revolta-se e ataca ferozmente...

15 abril 2006

[224] Citações do mundo

"Spectatum veniunt, veniunt spectentur ut ipsae" [Vêm para ver; vêm também para que possam ser vistos]
(Ovídeo, 43 a.C.-c. 17 d.C.)

[223] Roma, I a.C. ou Lisboa, MMVI d.C.?

«Foi sempre do melhor partido [i.e., os optimates] [...] só que estabeleceu como regra nunca servir o seu partido; contentava-se com desejar-lhe boa sorte. [... ] A sua reserva só se manifestava quando era preciso agir [...]»
(Gaston Boissier sobre Ático, cit. por Anthony Everitt, "Cícero, uma vida", trad. por M.ª José Figueiredo, Quetzal Ed., Lisboa: 2004. Cícero nasceu em 106 a.C e morreu em 43 a.C.)

[222] Samedi après-midi: o sol não brilha em S. Bento

"O deputado comum não é ouvido ou consultado sobre coisa nenhuma: nem sobre política, nem sobre estratégia. Recebe ordens para votar assim ou assado ou, de quando em quando, para dizer isto ou aquilo, sem sequer lhe perguntarem se concorda ou discorda, como se a consciência e o carácter dele não valessem nada".
(Vasco Pulido Valente, in "PÚBLICO", 15-4-2006)
*
Mas não será que só aceita esse papel quem não tiver mesmo carácter ou convicções? Para muitos, estar nesta ou naquela bancada é indiferente, desde que se seja deputado.
Ser deputado tornou-se num emprego (no pior sentido da palavra); há muito que deixou de ser um cargo ou uma missão. E como emprego que é, o empregador define as regras do recrutamento: procuram-se os mais mansos, os mais dóceis, os menos brilhantes, os mais bajuladores, os menos "independentes" (não viram como, há anos, foram corridos do Parlamento e do Governo?).
Há muita literatura sobre "estes" deputados. Assim de repente, até me lembro de um dos escritores do "regime", Moita Flores, e o seu "Não há lugar para divorciadas"...
O pior é que os reputados deputados (e também os há, em todas as bancadas) cada vez estão mais na penumbra, a ver se escapam a este enxovalho!

14 abril 2006

[221] While waiting for it, I write... (S. Beckett: 1906-1989)

«Naquela altura eu não percebia as mulheres. Aliás agora também não. Nem os homens. Nem os animais. O que percebo melhor, e não é dizer muito, são as minhas dores.»
(Samuel Beckett, "Primeiro Amor", 1946)

[220] Late Friday afternoon: A Paixão


Francisco Goya, "Cristo crucificado" (detalhe),
1780, óleo, 253 x 153 cm, Museu do Prado (Madrid)

[219] Modelo nórdico ou latino?

Os últimos episódios da gestão da PJ atestam duas convicções pessoais:
1. a "judiciarização" da Administração é um caminho errado, inútil e perigoso. Só muito excepcionalmente deve um director-geral (DG) ser magistrado de carreira, quando esse cargo exija, em determinado momento histórico e numa determinada instituição, uma independência e uma indisputabilidade acrescidas. Sendo os requisitos para as nomeações de cargos públicos (admito que seja ingenuidade minha) a competência, a seriedade, a defesa superior do interesse público, o rigor e a eficiência, só se afigura necessário recrutar magistrados se se chegar ao ponto de não haver ninguém na Administração Pública que preencha tais requisitos!
2. O recrutamento de magistrados para o cargo de DG coloca um problema delicado à democracia e ao Estado de Direito. Sendo o DG um funcionário, sujeito à hierarquia e tutela do Ministro, como vai o magistrado (que pertence a uma carreira constitucionalmente protegida pela inamovibilidade, independência e irresponsabilidade) exercer o seu cargo e, sobretudo, em que condição regressa às suas funções jurisdicionais?
"À Política o que é político; à Jurisdição, o que é da justiça".
Voltaremos a isto oportunamente...
[ADENDA: Afinal, depois de admitido o cenário de transferência das relações internacionais da PJ, também já se assume a falta de recursos financeiros: http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1254061.]

12 abril 2006

[218] Bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz...

Para quando a aplicação dos princípios do Programa de Reestruturação da Administração Central do Estado (PRACE) - qualificação, racionalização, flexibilidade, proximidade, comunicação - ao Governo e ao Parlamento?

[217] Poesia do mundo: por vós, contra mim...

"contra mim bate a esperta difusão
do tempo, a extensa confusão do
olhar, a vibrante galeria da
cor: o espaço. durante uma
pequena e qualquer loucura, não
me componho.
se não somos mudos, ficarei
surdo. nestas rochas onde o
sol se desleixa e persegue as
águias que escondem ninhos
secos.
e é quando tento agarrar
o sol que reparo ter
as mãos convexas
"
(valter hugo mãe, "estou escondido na cor amarga do fim da tarde")

10 abril 2006

[216] Late sunday evening: pintura do mundo


Vincent van Gogh, "Oliveiras com sol e céu amarelo", 1889,
óleo, 73,7 x 92,7 cm (no "The Minneapolis Institute of Arts", EUA)

09 abril 2006

[215] No Domingo de Ramos, a palavra de inspiração

"Ai de mim, que sou um homem desgraçado, pois faço o mal que não quero e não faço o bem que quero!"
(São Paulo)

[214] Blogosfera à noite: todos os gatos são parvos...

« (...) custa-me a entender como é que José Sócrates consegue conciliar o seu alegado pendor "nórdico" e discreto, referido a Nicolau Santos, com esta babugem frívola para cima de uma ditadura. Há momentos e lugares em que ser apenas "institucional" não basta.»
(João Gonçalves, Portugal dos Pequeninos, 8-4-2006)

02 abril 2006

[213] Karol Wojtyla: um homem, um destino (1)

Um ano depois, in memoriam (2)
*
«Da vida e martírio de S. Tomás Moro emana uma mensagem que atravessa os séculos e fala aos homens de todos os tempos da dignidade inalienável da consciência, na qual, como recorda o Concílio Vaticano II, reside «o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser» (Gaudium et spes, 16). Quando o homem e a mulher prestam ouvidos ao apelo da verdade, a consciência guia, com segurança, os seus actos para o bem. Precisamente por causa do testemunho que S. Tomás Moro deu, até ao derramamento do sangue, do primado da verdade sobre o poder, é que ele é venerado como exemplo imperecível de coerência moral. Mesmo fora da Igreja, sobretudo entre os que são chamados a guiar os destinos dos povos, a sua figura é vista como fonte de inspiração para uma política que visa como seu fim supremo o serviço da pessoa humana.»
(in "CARTA APOSTÓLICA SOB FORMA DE MOTU PROPRIO PARA A PROCLAMAÇÃO DE S. TOMÁS MORO PATRONO DOS GOVERNANTES E DOS POLÍTICOS", de 31-10-2000)

(1) ou de como se homenageia, igualmente, S. Tomás Moro e os políticos de alta estatura moral e cívica que têm governado os destinos de tantos povos e instituições

[212] Pintura do mundo: ter ou não ter, eis a razão...

Goya, "El sueño de la razón produce monstruos", 1797-98

[211] Late afternoon: os povos têm os governantes que merecem...

«O pior da propaganda reside, por um lado, na consideração que o Governo tem pelos seus concidadãos: mentalmente débeis. Por outro, naquilo que percebemos que é uma das qualidades dos governantes: a ignorância atrevida. Para não dizer autoritária.»
(António Barreto, in PÚBLICO, 02-04-2006)

01 abril 2006

[210] Late evening: traços de cultura e de memória

A Associação do Prémio Nacional de Literatura Juvenil Ferreira de Castro (APNLJFC), criada em 1994 para institucionalizar o prémio a que dá nome e que homenageia esse tão notável quanto esquecido escritor português (1), já está a promover a 30.ª edição do prémio nacional e as primeiras edições para jovens brasileiros (onde o escritor viveu durante cerca de 10 anos) e africanos de língua oficial portuguesa: a 3.ª e 1.ª, respectivamente.
Este prémio literário, nas modalidades de poesia e prosa, destina-se a revelar e divulgar novos valores literários, dos 12 aos 20 anos, e é de louvar a sensibilidade e a dedicação da Escola Secundária Ferreira de Castro, em Oliveira de Azeméis, na pessoa do Prof. Vítor Amorim, actual director da APNLJFC.
Num serão de sábado ou numa tarde dominical, recomendo a todos, sobretudo a pais e filhos, o sítio da APNLJFC: http://www.prof2000.pt/users/lmop/apnljfc/home/home.html.

[209] Doutrina do mundo: justiça vs. igualdade

«Um dos aspectos que a justiça pode tomar (...) é o da igualdade. A sua expressão é a norma “todos os homens devem ser tratados por igual”, que não exprime a absurda ilação de que todos sejam iguais, mas que as desigualdades de facto são irrelevantes para o tratamento dos homens. No extremo oposto, o princípio de que cada caso particular deva ser tratado como tal (é o ideal da plena flexibilidade do direito: a justiça do caso concreto). A norma de justiça pela qual todos devem ser tratados de forma igual nada diz sobre o conteúdo desse tratamento; aplicada a qualquer que fosse, conduziria a consequências absurdas. “Por isso – prossegue KELSEN – o princípio, plenamente formulado, diz: ‘quando os indivíduos são iguais – mais rigorosamente, quando os indivíduos e as circunstâncias externas são iguais – devem ser tratados igualmente, quando os indivíduos e as circunstâncias externas são desiguais, devem ser tratados desigualmente’.”
Em conclusão: a justiça não é igualdade (Hans KELSEN, "O problema da justiça", pp. 51-62).»
(Erik Frederico Gramstrup, professor na Pontifícia Universidade Católica de S. Paulo, Brazil, e Juiz Federal)

[208] Todos iguais, todos diferentes...

Ainda a igualdade.
Quando, nesta época da normalização e uniformização, se apela, dogmaticamente, ao princípio da igualdade, de que igualdade se trata? Igualdade em quê? No potencial? Na educação? No desempenho? Nas oportunidades? Nos resultados? No acesso? Nas necessidades? Na dignidade?
Todos devem poder ter acesso aos bens públicos de satisfação de necessidades essenciais, sejam elas fisiológicas, culturais, sociais, económicas ou outras. E todos devem ser tratados digna e caridosamente (no verdadeiro sentido da palavra).
E ficamos, em regra, por aqui. Porque respeitar o princípio da igualdade é também distinguir o que é diferente. E não ter medo de o fazer!

[207] Early saturday afternoon: citações

"La vraie générosité envers l'avenir consiste à tout donner au présent."
(Albert Camus)

[206] Sábado à tarde: a imbecilidade [201], parte II

O dogma da igualdade está, a pouco e pouco, a (re)criar uma sociedade indiferenciada, de gente amorfa e indistinta e, no limite, totalitária (porque tal ideia de igualdade fomentada pelo discurso "politicamente correcto" induz, suave, mas determinadamente, o pensamento único, a ameaça única, o objectivo único, destruindo a pluralidade e a multiplicidade).
Todos somos iguais e as políticas públicas fazem questão de assentar neste (falso e injusto) pressuposto. As carreiras públicas são todas iguais e, por isso, eliminam-se os regimes especiais (excepto, naturalmente, para os titulares de cargos políticos, porque esses são "mais iguais do que os outros"). Os cidadãos são todos iguais (a não ser que tenham fortuna pessoal ou filiação partidária, esse resquício tão "soviético"), as escolas são todas iguais (a menos que pertençam à Opus Dei ou afins), as profissões são todas iguais (mesmo as praticadas "na rua"), as doenças e os pacientes são todos iguais (e, por isso, cura-se quem for rico), os transportes são todos iguais (daí que não haja vantagem em andar de transporte público), etc., etc., etc.
Até os governos parece que são todos iguais! Afinal, a "Terceira Via" de Blair, Clinton, Guterres, Fernando Henrique, Lula, Zapatero e, agora, Sócrates parece que vingou...

26 março 2006

[205] "What is your dangerous idea?"

Como habitualmente, a comunicação social portuguesa - entretida com os fait divers da política doméstica (no pior sentido) - está a léguas das novas tertúlias e correntes do pensamento.
Nada que me admire muito. Mas já me supreende que, na blogosfera, muita coisa passe despercebida.
Uma delas é o conjunto de elevadíssimas discussões que ocorrem em The World Question Center, da Fundação Edge. O seu mentor, Heinz R. Pagels, que declarou: "The future, as always, belongs to the dreamers." (The Dreams of Reason).
*
P.S. Paulo Gorjão, de outra perspectiva, também toca na ferida: o problema português é a falta de "thinks tanks" (http://bloguitica.blogspot.com/2006/03/think-tanks-ii-de-ii-462-capaz-de.html).

[204] As limpezas da Primavera

Negócios Estrangeiros, Justiça, Cultura e Assuntos Parlamentares.
*
P.S. Espero que o PM aplique também as propostas de reestruturação do PRACE ao próprio Governo, extinguindo e fundindo ministérios e secretarias de Estado. Quem quiser ver um modesto contributo para a criação de uma nova estrutura governamental, pode reler o post n.º 7 "Small is beautiful", de 24-3-2005 (há, portanto, um ano).

[203] "Reservo-me o domingo para a busca"

«Reservo-me o domingo para a busca
receosa e teimosa da alegria.
Meu coração devia ser alegre
como um pássaro novo,
meu coração devia ser alegre
como o vinho ou o fogo
No entanto, onde está a alegria?
onde estão as sementes da alegria?
onde vive a alegria? No entanto,
pergunto às coisas e às gentes
de domingo onde está a alegria.
Mesmo que a não encontre
destino-lhe o domingo,
este e outros domingos,
este sol e outros ventos,
este mar e outras ruas,
estas mãos e estes olhos.
Assim acho razão para não estar triste.»
(António Rebordão Navarro, "O Dia Dentro da Noite", Poemas: 1952 - 1982, Imprensa Nacional Casa da Moeda)

[202] Early Sunday evening: "Não cantes o meu nome em pleno dia"

«Não cantes o meu nome em pleno dia
não movas os seus ásperos motivos
sob a luz dolorosa sob o som
da alegria
Não movas o meu nome sob as tuas
mãos molhadas do choro doutros dias
não retenhas as sílabas caídas
do meu nome da tua boca extinta
Não cantes o meu nome a primavera
já o ameaça hoje principia
a vida do meu nome não o cantes
com a tua alegria»
(Gastão Cruz, "Os nomes", Imagem da Linguagem, Assírio & Alvim, 1974)

[201] Imbecilius inter pares

«Um dos temas mais imbecis que anda no ar é seguramente o da "paridade". O termo, por si só, já é irritante. (...) A maturidade cívica e política de um agente representativo não se mede nem pelo sexo nem pela "paridade".»
(João Gonçalves, Portugal dos Pequeninos, 26-3-2006)
*
Conceitos como "paridade" ou "igualdade (de género)" e afins só são possíveis nesta ditadura do "politicamente correcto", em que tudo e todos são tratados da mesma forma, ou seja, pelo nível discursivo e conceptual mais rasteiro, yet, mais apelativo, porque cria a ilusão de que todos somos iguais.
Nada mais falso! A ideia é amolecer e banalizar, para que "os porcos" triunfem...

22 março 2006

[200] Hoje deito-me eu no divã...

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves,
Dentro do coração,
assim falava a canção
que na América ouvi,
mas quem cantava chorou
ao ver o seu amigo partir,
mas quem ficou,
no pensamento voou,
o seu canto que o outro lembrou
E quem voou no pensamento ficou,
uma lembrança que o outro cantou.
Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito,
mesmo que o tempo e a distância digam não,
mesmo esquecendo a canção.
O que importa é ouvir a voz
que vem do coração.
Seja o que vier,
venha o que vier
Qualquer dia amigo eu volto
pra te encontrar
Qualquer dia amigo,
a gente vai se encontrar.
(Milton Nascimento, "Canção da América", de Fernando Brant e Milton Nascimento)
*
Dedico este poema, no primeiro aniversário do blogue, pelas razões que os próprios conhecem, ao Bruno, ao David, à Elizabeth, ao Filipe, à Isabel, ao Jó, à Jô, ao Joca, ao Jota, ao Madeira, à Maria, à Nella, ao Panfúncio, ao Pebble, ao Rick, ao Vasco, ao Vitinho, ao Zeca e a todas/os aqueles a quem, querendo-me bem, não tenho podido corresponder, por falta de tempo, de espaço, de sensibilidade ou de bom senso...

[199] Esta noite sinto-me assim:


Egon Schiele, "Autumn Trees", 1911 (Oil on canvas, 79.5 x 80 cm)

21 março 2006

[198] Early night: entre dois pingos de chuva...

«Devido ao previsível aumento de acções contra o Estado - Justiça: ministro admite contratar advogados para colmatar falta de magistrados»
(in Público online, 21-3-2006)
*
Então, mas a miraculosa "redução" das férias judiciais não iria resolver (quase) todos os problemas da Justiça? E os que sobrarem serão resolvidos por advogados? Mas onde fica a independência e amovibilidade dos magistrados?

[197] Literatura do mundo: o inferno é aqui

«No Estado do Vaticano vigora a lei de que nenhum criminoso pode ser executado sem antes receber a absolvição. Assim que Piachi soube da sua sentença, recusou obstinadamente a absolvição. Depois de terem recorrido a todos os meios de que a religião dispõe para mostrar a Piachi a ignomínia do acto que praticara, levaram-no para a forca na esperança de que, quando colocado diante da morte que o aguardava, o condenado finalmente se arrependesse. Um padre descreve-lhe com os pulmões da última trombeta todos os horrores do inferno onde a sua alma pecadora se preparava para mergulhar; um outro, com o corpo de Deus, o sagrado sacramento, na mão, glorificou a morada da paz eterna. "Queres tu fruir do benefício da redenção?", perguntaram-lhe ambos. "Queres receber a comunhão?" "Não", respondeu Piachi. "Porque não?" "Não quero ser salvo. Quero descer às vísceras mais profundas do Inferno. Quero voltar a encontrar Nicolo, porque ele não estará no Céu, e concluir aí a vingança que aqui apenas pude começar!" E assim subiu a escada e exigiu ao verdugo que fizesse o seu trabalho. A execução teve de ser interrompida e o infeliz, a quem a lei protegia, foi levado de volta para o cárcere. Fizeram-se mais três tentativas como esta nos três dias que se seguiram e todas com igual resultado. Quando ao terceiro dia o obrigaram mais uma vez a descer as escadas do patíbulo, Piachi ergueu as mãos exasperado e amaldiçoou a lei desumana que lhe vedava a passagem para o inferno.»
(Bernd Heinrich Wilhelm von Kleist, "O Órfão", tradução de José Maria Vieira Mendes)

20 março 2006

[196] De Bolonha a Lisboa, pela ponta de uma caneta

«Decreto-lei prevê reorganização dos estabelecimentos portugueses no ano lectivo de 2007/08 - primeiro diploma promulgado por Cavaco alinha Ensino Superior com Bolonha:

«O Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, promulgou hoje o decreto-lei que alinha o Ensino Superior português com o Processo de Bolonha, aprovando o primeiro diploma desde que tomou posse, a 9 de Março.»
(in Público online, 20-3-2006)
*
Considero muito feliz o facto de ser precisamente este o primeiro diploma sujeito a promulgação pelo novo PR.
Pelo objecto: reestruturação dos currículos universitários, num país em que se exige (muito) mais conhecimento, formação e, já agora, discussão.
Pela ambição: trata-se da harmonização de sistemas de ensino com vista à livre circulação de licenciados, mestres e doutores.
Pelo simbolismo: a Educação foi uma das (poucas) pastas em que os governos de CS-1.º Ministro não terão estado à altura do bom balanço geral que é feito. Oxalá CS-Presidente contribua para a excelência desta área!

19 março 2006

[195] Gloriae mundi

Palavras para quê? Mais do que um clube, é uma cultura!

[194] Early evening: as escolhas de... Cavaco

Já começa o cerco ao PR. Corrijo, a Cavaco Silva, a quem muitos não perdoam a conquista do "palácio rosa".
Os primeiros ataques vieram de Jerónimo de Sousa, que não se cansa de repetir que ficou sem representante no Conselho de Estado. Mas ninguém é capaz de informar o senhor deputado que se trata disso mesmo, de conselheiros do PR, por si escolhidos? Por ventura, tivesse Jerónimo essa competência, escolheria representantes do CDS/PP e do PPD/PSD para seus conselheiros? Esses entram (ou deveriam entrar, se tudo funcionasse regularmente) na quota parlamentar. Muito gostaria eu de ver Paulo Portas, Paula Teixeira da Cruz, Jaime Nogueira Pinto, José Pacheco Pereira e outros a aconselharem Jerónimo ou Louçã!
Que me lembre, nunca vi nenhuma discussão tão acessa sobre as escolhas de um presidente da República para o Conselho de Estado ou para as suas duas Casas. Sempre houve uma espécie de cortesia protocolar e reverência institucional que impedia que se comentassem ou criticassem escolhas ou opções presidenciais, para além do estritamente necessário (ex. promulgação de diplomas-chave, orientações políticas em momentos críticos, etc.).
Acho que muita gente estava mal habituada à alternância, convencida de que há lugares vitalícios. E são eles os "democratas de Abril"...

[193] Humor do mundo: a lei geral e abstracta

(cartoon que circula na internet)

18 março 2006

[192] Pintura do mundo: consequências [191]


David Scheirer, "Free Number 5", 2004 (pencil, 8x6 polegadas)

[191] Early afternoon: citações do mundo

"The paramount relation between poetry and painting today, between modern man and modern art, is simply this: that in an age in which disbelief is so profoundly prevalent or, if not disbelief, indifference to questions of belief, poetry and painting, and the arts in general, are, in their measure, a compensation for what has been lost."
(Wallace Stevens, Angell Gallery)
*
E quando perdermos a capacidade de nos representarmos, teremos perdido (quase) tudo...

14 março 2006

[190] Carta-aberta ao Primeiro-Ministro

Senhor Primeiro-Ministro
Excelência
Escrevo na qualidade de médico das carreiras hospitalares e faço-o numa publicação profissional por julgar que o assunto é do interesse de todos os meus colegas.
Dirijo-me ao Estado, entidade abstracta, meu empregador, que V.ª Ex.ª, por força das últimas eleições, legítima e indiscutivelmente, representa. E, desde já, asseguro que não me move qualquer intuito político. Debalde poderá V.ª Ex.ª buscar qualquer filiação partidária, que não tenho, nunca tive e julgo nunca terei. Tampouco achará V.ª Ex.ª no meu curriculum atitudes de reivindicação, de reclamação ou de contestação, fora do mais estrito âmbito laboral. Esta carta é tão-somente um pedido de decência nas relações de trabalho com a minha entidade patronal, ditada pelo frustrar do que cuidava serem as mais legítimas expectativas.
Quando há mais de um quarto de século aceitei começar a trabalhar para o Estado, fi-lo na convicção de que era uma entidade recta e íntegra ou, como em linguagem vulgar se diz, uma pessoa de bem. Não o é, como ao longo dos anos vim constatando: o Estado é um gestor ruinoso do bem comum, que todos pagamos. As contas públicas não deixam margem para dúvidas. O Estado é caloteiro, paga pouco, tarde e mal mas, reciprocamente, é o mais temível dos credores. Basta ver como nega o princípio da compensação. O Estado é iníquo e corrupto. Confirme-se, a cada nova ronda de eleições, o baile de apaniguados a ocupar furiosamente os lugares públicos, sem concurso, sem justificação e, pior que tudo, sem competência. De tal situação, deu V.ª Ex.ª o mais despudorado exemplo.
O Estado denega a Justiça. Ao recusar criar condições para uma laboração rápida e exemplar dos tribunais, ao legislar diplomas dúbios, efémeros, se não contraditórios, perpetua-se o primado do acordo de circunstância ou do acto administrativo sobre o que devia ser Justiça, límpida e rigorosa.
Mas, ainda que tenha criado do Estado uma tão má imagem, nunca julguei que se pudesse chegar a violar princípios fundamentais do Direito, como o da não retroactividade das leis. Princípios que fazem parte dos direitos, liberdades e garantias universais de cujo reconhecimento Portugal é signatário. Ao que parece pouco convicto.
Declarou V.ª Ex.ª publicamente a suspensão da progressão nas carreiras e o aumento da idade da reforma. A menos que se trate de mais uma afirmação para não cumprir, a que V.ª Ex.ª nos vai habituando, tal representa, pura e simplesmente, legislar com efeitos retroactivos à data de início do contrato de trabalho - 26 anos, no meu caso. Ora, quando me vinculei à Função Pública, foi-me asseverado que teria o meu direito à reforma aos 60 anos e à progressão na carreira conforme prevista nos regulamentos aplicáveis. Os descontos a que fui sujeito ao longo destes anos a favor da segurança social não são mais um imposto, mas sim uma quantia que é minha e que confiei ao Estado para que a guardasse, investisse e finalmente provesse à minha reforma, segundo os termos acordados.
Nas recentes medidas económicas de excepção, sacrificou V.ª Ex.ª, uma vez mais, aqueles que pagam, sempre o fizeram e assim continuam. Quanto à oligarquia de riqueza ostensiva, na qual se inclui a classe política, continua arrogante, impune... e não tributada. No outro extremo, marginais que nunca trabalharam são encorajados a jamais o fazerem, mediante subsídios da Segurança Social, numa pedagogia leviana e suicidária, conquanto que eleitoralmente muito rentável.
Não sendo político não necessito de ser politicamente correcto. V.ª Ex.ª sabe, por demais, a quem maioritariamente são entregues os subsídios da Segurança Social: àqueles grupos étnicos que, justamente, perfazem o grosso da nossa população prisional. Assim, in limine, o subsídio é, na realidade, um suborno pago aos marginais para os manter controlados. Dada a maneira como V.ª Ex.ª trata as polícias e a magistratura faz todo o sentido. É mesmo muito inteligente e pragmático. Não sei é se será ético mas, olhando em redor, essa é uma palavra em desuso. Ora o certo é que a Segurança Social não vive das contribuições dos políticos - reformados ao fim de oito exaustivos anos de trabalho. Vive das nossas. E V.ª Ex.ª, ao alterar, de forma unilateral e, repito, retroactiva, o contrato que me ligava ao Estado, denunciou esse contrato. V.ª Ex.ª decerto concordará que, se não fosse o Estado, mas uma pessoa individual, a praticar estes actos, tal teria um nome pejorativo e uma sanção penal. Assim como se se tratasse de uma empresa ou qualquer outra entidade patronal haveria, indiscutivelmente, lugar a uma indemnização por quebra de contrato.
Pelo que, reportando-me aos princípios de equidade que seria suposto regerem o país, peço em meu nome, e dos médicos das carreiras públicas, igualdade de tratamento com os senhores deputados da nação, naquilo que V.ª Ex.ª muito bem definiu como «justas expectativas».
Respeitosamente.
Coimbra, 28 de Junho de 2005
a) Dr. Luís Canavarro*
*Assistente Hospitalar Graduado de Psiquiatria nos HUC
(carta que recebi, via correio electrónico, e que, embora atrasada, dispensa comentários.)

13 março 2006

[189] Late afternoon: folha de um diário intimista


Se eu puder partilhar o coração com alguém especial estarei a partilhar tudo o resto:
os meus livros, os meus silêncios, as minhas falas, o meu conhecimento, as minhas fraquezas, as minhas forças, os meus objectivos, o meu riso, as minhas lágrimas, a minha cama, a minha vida...

11 março 2006

[188] A caricatura da república

Jorge Sampaio, por Paula Rego (via "Expresso")


Foto, retrato ou caricatura?
Não entendo a intenção. Desmerece porque desmoraliza. O retrato de um Presidente tem que engrandecer o homem e o cargo! A presidência não é uma galeria de arte kitsch!
(Núncio/Portugal Real, Expresso, 11-3-2006)

07 março 2006

[187] O direito a (não) ser muçulmano

"GV: Porque é que tantos muçulmanos que vivem na Europa parecem ter desprezo pela Europa?
A.H.A.: Na América, é-se americano desde que se lá entra. Na Europa, a maioria dos imigrantes quer sempre regressar à sua terra natal. Em consequência, são sempre acolhidos como meros «visitantes» nas suas novas sociedades. Se uma pessoa não se defende sozinha na América, se não ganha o seu dinheiro, está literalmente morto e fracassará. Na Europa, o estado social distribuiu dinheiro generosamente, deixando os imigrantes num estado de espírito passivo. O seu «modo de ser diferente» é encorajado pelos sacerdotes islâmicos importados, que lhes dizem que não têm nada de comum com os infiéis.
GV: Qual é o próximo passo depois do multiculturalismo?
A.H.A.: Chegou a altura de tratarmos os imigrantes como cidadãos genuínos. O governo tem de agir mais claramente, por vezes com maior dureza, e tem de exigir mais. Veja os crimes de honra contra as mulheres turcas, que são um problema aqui na Holanda. Não apenas o homicida tem de ser punido, mas também toda a família, até a mulher que serve o chá enquanto o conselho de família se reúne para preparar este acto sangrento. Precisamos de enviar um sinal: não é permitido fazer estas coisas. Nos casos de excisão do clítoris precisamos também de um sistema de controlo. Na Holanda, temos esse sistema, mas ainda funciona numa base de voluntariado. Contudo, já é um começo.
GV: Porque é que as nossas sociedades europeias não são capazes de actuar mais vigorosamente contra injustiças óbvias e a opressão da mulher muçulmana?
A.H.A.: Quando vamos às comunidades turcas e falamos sobre os valores e códigos de comportamento que são incompatíveis com a liberdade e a democracia, muitas vezes ouço o argumento de que, na Europa, os judeus foram mortos e que isto é também o que está destinado para os muçulmanos - eliminá-los culturalmente. Estes são argumentos assassinos que paralisam qualquer europeu. Pela minha parte, na minha qualidade de nova mulher europeia, digo-lhes: não se deixem enganar! O que essas pessoas estão a dizer é simplesmente, «deixem-nos em paz e deixem-nos continuar a oprimir as nossas mulheres». Nenhuma sociedade civil nem nenhum governo têm de aceitar isto.
"
(GV é Andrea Seibel, sub-chefe de redacção do «Die Welt», e AHA é Ayaan Hirsi Ali, a deputada holandesa-somali que trabalhou com Theo van Gogh num filme sobre as mulheres muçulmanas. É um excerto de uma entrevista republicada no «Expresso». Os sublinhados são do blogger.)
*
Humildemente, sugerimos que Freitas do Amaral (re)leia esta entrevista. Pode ser que, finalmente, entenda...

[186] Early night: confissões de 12 mentes brilhantes

«Depois de ter vencido o Fascismo, o Nazismo e o Estalinismo, o mundo enfrenta agora uma nova ameaça totalitária global: o Islamismo.
Nós, escritores, jornalistas, intelectuais, vimos aqui apelar à resistência ao totalitarismo religioso, bem como à promoção da liberdade, da igualdade de oportunidades e dos valores laicos para todos.
Os eventos que ocorreram recentemente, depois da publicação das caricaturas de Maomé em jornais europeus, tornaram evidente a necessidade de um combate em prol destes valores universais. Trata-se de um confronto a travar no campo ideológico e que nunca poderá ser ganho pelas armas. Aquilo a que estamos presentemente a assistir não constitui um conflito de civilizações, nem um antagonismo Este-Oeste, mas antes uma luta global entre democratas e teocratas.
Como todos os totalitarismos, o Islamismo estabelece-se sobre medos e frustrações. Os pregadores do ódio apostam nesses sentimentos para formar batalhões destinados a impor um mundo de opressão e desigualdades. Contudo, nós afirmamos clara e firmemente: não existe nada, nem mesmo o desespero, que possa justificar a escolha do obscurantismo, do totalitarismo e do ódio. O Islamismo é uma ideologia reaccionária que aniquila a igualdade, a liberdade e a laicidade sempre que as encontra. O seu êxito só pode conduzir a um mundo de dominação: dominação do homem sobre a mulher, dominação dos islamistas sobre os demais. Para nos opormos a este processo, temos que assegurar direitos universais a todos os povos discriminados ou oprimidos.
Rejeitamos o «relativismo cultural», que consiste em aceitar que homens e mulheres de cultura muçulmana devem ser privados do direito à igualdade, à liberdade e aos valores laicos em nome do respeito pelas culturas e tradições.
Recusamo-nos a renunciar ao espírito crítico por receio da acusação de "islamofobia", um conceito infeliz que confunde a crítica do Islão enquanto religião com a estigmatização dos seus crentes.
Pugnamos pela universalidade da liberdade de expressão, para que o espírito crítico se possa exercer em todos os continentes, contra todos os abusos e todos os dogmas.
Apelamos a todos os democratas e espíritos livres de todos os países para que o nosso século venha a ser um tempo de Iluminismo e não de obscurantismo.»
Ayaan Hirsi Ali,
Chahla Chafiq,
Caroline Fourest,
Bernard-Henri Lévy,
Irshad Manji,
Mehdi Mozaffari,
Maryam Namazie,
Taslima Nasreen,
Salman Rushdie,
Antoine Sfeir,
Philippe Val,
Ibn Warraq.»
(Tradução de Luís Mateus -
Associação República e Laicidade)
*
A publicação deste Manifesto aqui no Divã é devida à oportuna iniciativa de Ricardo Alves, do Diário Ateísta, a quem o pedimos "emprestado" (os destaques a negro são nossos).
Humildemente sugerimos a Freitas do Amaral que o leia, já que provavelmente não leu a entrevista do Presidente da República eleito ao ABC [181].

06 março 2006

[185] A propósito do brutal assassinato da Gisberta

«Triste época! Mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito.»
(Albert Einstein)
*
Não vamos fazer nada?

05 março 2006

[184] Late evening: Frida, a força da natureza!

"A coluna partida" (1944)
Frida Kahlo (1907-1954, México)
Sempre nos podemos impor, se nos deixarmos invadir pela força da vida! Uns pela música, outros pelo verbo, outros pelo tacto, outros pela pintura, uns pela escrita, outros pela ciência...
E todo o testemunho é encorajador!
(comentário do blogger a um post num blogue amigo)

[183] Poesia do mundo: Frei Agostinho da Cruz (1540-1619, Portugal)

«Ao triste estado

Passa por esse vale a Primavera,
As aves cantam, plantas enverdecem,
As flores pelo campo aparecem,
O mais alto do louro abraça a hera;


Abranda o mar; menor tributo espera
Dos rios, que mais brandamente descem;
Os dias mais fermosos amanhecem;
Não para mim, que sou quem dantes era.


Espanta-me o porvir, temo o passado;
A mágoa choro de um, de outro a lembrança,
Sem ter já que esperar, nem que perder.


Mal se pode mudar tão triste estado;
Pois para bem não pode haver mudança,
E para maior mal não pode ser
.»

[182] Literatura do mundo: O Morgardo de Fraião

«- Então vai-se embora, primo? - exprimiu o capitão-mor em voz mista de espanto e reprovação.
- Vou, pois então! Quer que me deixe roubar? Não, de mim não zombam. O abade e o Guerrilhas vão ver uma fona...
- Mas estava ainda há pouco tão doente...
- Não sei. Agora sinto-me rijo. De resto só quero forças até chegar a Valença, e uma moratória de dias... mais dois ou três dias de vida... S. Bento da Porta Aberta, meu advogado nas aflições, há-de-me ouvir e interceder por mim junto do Altíssimo - e, dizendo isto, calçava, sentado na cama, as botas de cano alto, levantando a perna à altura da cabeça do capitão-mor, acaçapado no tamborete.
- E o nosso rei? Não há-de assistir à abertura das Cortes? - interrogou o capitão-mor de Barcelos com certa veemência e tom de acritude.
- Em primeiro lugar estou eu. O príncipe - sabe que mais, primo? - que vá para o Diabo!»

(In RIBEIRO, Aquilino. Casa do escorpião: Novelas, Lisboa, Bertrand: 1985, pp. 11-69.)

[181] Late afternoon: a matter of beliefs!

«- ¿En qué cree que Occidente puede y debe hacer concesiones?
- Es difícil decir dónde se debe hacer concesiones, pero sí sé dónde no se puede, como en los principios fundamentales de la democracia. No puede ponerse en causa nuestra forma de vivir, en la que existen libertades que constituyen la esencia de la democracia.»
(Cavaco Silva ao jornal espanhol ABC, na primeira entrevista como Presidente da República eleito)
*
Afinal, o "razoável economista" tem também convicções políticas. E Freitas do Amaral deveria ler este trecho. Em poucas palavras, diz-se muito...

04 março 2006

[180] Late night: pintura do mundo


"Aristóteles contemplando o busto de Homero"
(Rembrandt, 1653)
Oil on canvas, 143.5 x 136.5 cm; Metropolitan Museum of Art, N. Iorque

[179] A Amizade, essa chama eterna...

"Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Nem percebem
o amor que lhes devoto e a necessidade que tenho deles.
Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido
todos meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos
e o quanto minha vida depende de suas existências.
Alguns deles não procuro. Basta-me saber que existem. Essa condição
me encoraja a seguir em frente pela vida. Mas como não os procuro
com assiduidade, não lhes posso dizer o quanto gosto deles.
E eles não iriam acreditar.
Muitos deles estão lendo esta crónica e não sabem
que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que saiba e sinta que os adoro, embora não o declare
e não os procure. E, às vezes, quando os procuro,
noto que não têm noção de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí
e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Por isso é que, sem que eles saibam, rezo pela vida deles. E me envergonho porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem-estar.
É, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo
e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima
por não estarem junto de mim, compartilhando aquele prazer...
Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida
não me permite ter sempre ao meu lado,
morando comigo, andando comigo, falando comigo, todos os meus amigos.
A gente não faz amigos, reconhece-os!»
("Amigos", Vinícius de Moraes)
*
Texto lindíssimo! Traduz, com fidelidade, o que sinto pelos meus amigos...
Eles são o meu mundo e a sua ausência ou apatia entristece-me profundamente e desestrutura-me. Eles são o meu sol, o meu sal e o meu sul...

03 março 2006

[178] Early afternoon: some thoughts

In a world where you can be anything, be yourself!
True friendship comes when silence between two people is comfortable.
Don't take yourself too seriously 'cos others sure won't!
Dream. Dream the world as you want it and start working to make it so.
*
Dedico este post a todos os que tocaram ou tocarão o meu coração e àqueles em cujo coração tive a felicidade de tocar.

[177] Os estereótipos são perenes

Não deixem de clicar neste endereço e ver como há coisas que nenhuma pós-modernidade consegue alterar:

[176] A pós-modernidade na linguagem

Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar "afro-americanos" aos pretos, com vista a acabar com as raças por via gramatical, isto tem sido um fartote pegado!
As criadas dos anos 70 passaram a "empregadas" e preparam-se agora para receber a menção de "auxiliares domésticas". De igual modo, extinguiram-se nas escolas os "contínuos"; passaram todos a "auxiliares de acção educativa". Do mesmo modo, e para felicidade dos "encarregados de educação", aboliu-se o aluno cábula; tais estudantes serão, quando muito, "crianças com necessidades pedagógicas". O analfabetismo desapareceu, cedendo o lugar à "iliteracia". Os gangues étnicos são "grupos de jovens". Os vendedores de medicamentos tratam-se por "delegados de propaganda médica" e os caixeiros-viajantes por "técnicos de vendas". As fábricas, essas, vistas de dentro são "unidades produtivas" e vistas de fora são "centros de decisão nacionais". Desapareceram dos combóios as classes 1.ª e 2.ª, para não ferir a susceptibilidade social das massas, mas continuam a cobrar-se preços distintos nas classes "Conforto" e "Turística".
A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: «Sou mãe solteira...»; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da melodia para: «Tenho uma família monoparental»... O abortamento eufemizou-se em "interrupção voluntária da gravidez" e já se não vêem por aí aos pinotes crianças irrequietas e «terroristas»; diz-se modernamente que têm um "comportamento disfuncional hiperactivo".
O "politicamente correcto" marimba-se para as regras gramaticais e, para compor o ramalhete, as gentes cultas da praça dão-se a "implementações", "posturas pró-activas", "políticas fracturantes" e outras impropriedades da linguagem.
À margem da revolução semântica ficaram as putas. Essas moças são ainda agora quem melhor cultiva a língua. Da porta do prostíbulo para dentro, não há "politicamente correcto" que lhes dobre a língua!
E assim vagueamos, perdidos entre a «correcção política» e o novo-riquismo linguístico.
(adaptado por Núncio de um texto anónimo que circula pela internet)

01 março 2006

[175] A pós-modernidade é um conceito próprio?

Apropriando-me, cortês mas assumidamente, de uma referência de JG no Portugal dos Pequeninos (em post de hoje), reproduzo aqui a interessantíssima lista de Norman Mailer que, segundo o mesmo, distinguirá a modernidade da pós-modernidade (embora, pessoalmente, defenda que já saímos mesmo do pós-modernismo há algum tempo). A negro, os pares que eu acho mais marcantes (decidi reproduzir a lista no original tal como resulta do sítio da Internet cujo link está associado ao título deste post; poderei, a pedido, ajudar a resolver quaisquer dificuldades de tradução):

MODERN / POSTMODERN
steel / plastic
Picasso / Warhol
Pullman & Coach / First Class & Economy
romance / narcissism
pot roast / vegan
FDR / GWB
Hitler / Hussein
Churchill / Blair
Zionism / Israel
USSR / People's Republic of China
consumption / cancer
Gone With the Wind / The DaVinci Code
drought / flood
blizzard / global warming
steak / salad
beer / lite beer
dessert / No-Cal
tycoons / CEOs
typewriters / PCs
Off-Broadway / Off-Off-Broadway
bebop / rap
shoes / sneakers
library / Internet
epistles / blogs
Gallo / Pinot Noir
bourbon / single malt
the Depression / the 1990s
corner stores / malls
Sinatra / Eminem
farming / agribusiness
slums / projects
highways / superhighways
Sears, Roebuck / Wal-Mart
antiseptics / antibiotics
heart attacks / bypasses
concentration / fragmentation
war / terrorism


Sem prejuízo de voltar ao tema, que me parece fascinante, à vous la parole! Dou o tiro de partida: a lista é marcadamente americana, embora com vários elementos "universais" ou globais, como correntemente se prefere dizer... Agora, comentem!

28 fevereiro 2006

[174] Late afternoon: citações poéticas

« "Beauty is truth, truth beauty" - that is all
Ye know on earth, and all ye need to know.»
(John Keats, Ode on a Grecian Urn, 1820)

25 fevereiro 2006

[173] Citações nocturnas

"Os maus só conhecem cúmplices; os pervertidos têm companheiros de deboche; os ambiciosos, associados; os políticos arrebanham os facciosos; os homens vulgares e ociosos têm ligações apenas; os príncipes, cortesãos; mas os homens virtuosos, e só eles, têm amigos..." (Voltaire)

[172] Early evening: pintura do mundo


"Violência", Alejandro Obregón, Colômbia, 1962

24 fevereiro 2006

[171] Como diria o outro, liberdade ou licenciosidade?

O pai de um dos jovens [três rapazes, entre os 16 e os 18 anos] de Barcelona [que, em Dezembro de 2005, regaram com gasolina e queimaram uma sem-abrigo] disse: "São miúdos modernos, de uma geração muito permissiva, que tiveram tudo. Talvez não tenhamos sido bons pais."
(in DN, 24-2-2006)
*
Esse é o grande problema do pós-Guerra: o desmantelamento dos regimes autoritários e a consolidação das democracias; a apologia das liberdades em detrimento da responsabilidade individual e colectiva (o liberalismo económico, financeiro e político que gerou profunda desregulação e exclusão sociais); o crescimento económico galopante (o maior de toda a história), assente no consumo; o florescimento das ciências sociais (em especial a psicologia e a pedagogia), tudo isto (embora aparentemente sem relação) teve consequências devastadoras na educação e formação dos descendentes daquela geração.
Quem não teve nada (ou quem ficou sem nada) quis dar tudo aos filhos e netos... Mas "tudo" é o quê? Liberdade? Dinheiro? Jogos? Carros? Cigarros? Sexo? Telemóveis? Da herança parece não fazer parte tolerância, urbanidade, cultura, livros, poesia, tertúlias, passeios, solidariedade, amor...

23 fevereiro 2006

[170] A propósito do "Festim Nu" de JG

O pavor de punir, porque pode traumatizar, está a deixar manietados pais, educadores e, pelos vistos, legislador...
Não sei como é que muitos de nós, incluindo o blogger e o signatário, chegaram aos 30, 40 ou 50 anos vivos e lúcidos! À luz destas teorias pedopsicológicas, já deveríamos estar loucos ou desgovernados...
(comentário deste blogger deixado no Portugal dos Pequeninos, em 23-2-2006)

22 fevereiro 2006

[169] Salpicos de um blogue refrescante

«E obriguei-me a recordar os momentos de amizade pura e de completa entrega sem sombras de sexo que já vivi. E senti que, de facto, não há maior entrega. Que o sexo pode ser uma prisão, uma arma, uma forma de subjugação. Um vício…»
(Sand Swimming: 13-2-2006)
«Gostámos mais do que aquilo que teríamos imaginado isoladamente.
Entre o cheiro do café
A solvência do açúcar
As palavras suspensas há tanto, tanto tempo.
Agora tudo se reunia
Agora tudo se reacendia
E as palavras desciam, volteavam, entrelaçavam-se.
E o pano cru
Abandonado há tanto
Retomava-se na trama como se o fio tivesse sido acabado de deixar
Para respirar
E voltar a tecer-se o encontro das palavras.
E o vento acompanhou o caminhar pelos espaços do estio
Apesar do frio.»
(Sand Swimming: 15-1-2006)

[168] Esta noite, sinto-me assim:


Gloriosa noite europeia!

18 fevereiro 2006

[167] Contagem decrescente...

Miguel, "Cavaco, Presidente eleito" (CCB, 22-1-2006)

Discreta, mas ponderadamente, lá vai, desde o Palácio de Queluz, formando a sua equipa e preparando o magistério. Pelo andar da carruagem, a "cooperação", mais do que estratégica, terá que ser esforçada... a começar pelos Negócios Estrangeiros, área onde o PR tem uma intervenção mais nítida e que está entregue, até ver, a um irreconhecível Freitas do Amaral!

[166] Late evening: a vida como ela é... sem flores


Já tem mais de um ano esta foto magnífica, mas recordo-a aqui, pela actualidade e contextualidade. O autor é Evandro Monteiro, brasileiro, e a foto é "Zoinho, menino de rua, enfrenta polícias" (São Paulo, 2004).

13 fevereiro 2006

[165] Late evening: Azul


"O meu filho fez-me agora um desenho no braço com aquelas canetas de bico grosso azul céu. Fez cinco riscos. A história não viria ao caso se eu tivesse algo de interessante para dizer. Como não tenho, vou só escrever que estes riscos fazem lembrar-me as marcas que o meu amigo tem nos braços. É claro que as deles são mais fundas e mais azuis. E estão nas veias. Não saem com álcool, nem com nada. O que até não é mau. Porque me lembram que ele viveu muitos anos no Casal Ventoso. Que esteve preso. Que ficou seropositivo por causa de uma agulha infectada e que fugiu à morte à custa de si mesmo. As linhas no meu braço lembram-me que o meu amigo tem uma empresa que factura milhares de contos por ano. As linhas lembram-me que o meu amigo é um pai extremoso. As linhas lembram-me que o meu amigo é um grande amigo. As linhas lembram-me que o nome do meu amigo devia sempre ser escrito com uma daquelas canetas de bico grosso azul céu."
(Francisco Trigo de Abreu, Mau Tempo no Canil, 13-2-2006)
*
Azul mar, azul céu, azul vida! Belíssimo post. Comovente. Parabéns, FTA!

12 fevereiro 2006

[164] Contrastes neocapitalistas.

"São Paulo, a megalópole do luxo kitsch:
"Ignorando a miséria, a capital económica do Brasil é o Quartel-General dos abastados, com os seus bares, os seus hotéis luxuosos, as suas boutiques com heliporto...
"(...) Com 35% do PIB brasileiro concentrado no Estado de São Paulo, a megalópole é mesmo uma capital do luxo, com as suas «Fashion Weeks» (semanas da moda), os seus parques semeados de obras de Oscar Niemeyer, o arquiteto do concreto curvado, e as suas bienais de arte contemporânea. A megalópole passou de 30.000 habitantes em 1870 para 18 milhões em 2005, tornando-se assim a terceira maior cidade do mundo, a mais importante do hemisfério sul. Fundada em 1554 por um pequeno grupo de jesuítas, ela possui hoje 2.578 arranha-céus.
"(...) Uma cidade extremada onde o dinheiro jorra aos borbotões. (...) Paraísos para os passeadores, [o]s antigos "jardins" são uma zona protegida do grande risco - seguranças (...) de terno preto ou azul escuro conversam em frente às lojas e aos restaurantes com os colegas motoristas e guarda-costas. Situado no coração desta cidade disparatada, este triângulo de ouro protege os afortunados da economia mundial e a clientela estrangeira. Boutiques de luxo, restaurantes de ementa "nouvelle cuisine" (...). Por exemplo, no Clube do Chocolate, na Rua Haddock Lobo, sem dúvida uma das mais caras do (...) imobiliário paulista, junto à Rua Oscar Freire, o equivalente tropical de uma Rua Saint-Honoré, em Paris.
"Em certos casos, ocorre que a riqueza não se sente à vontade num bairro por demais apertado como o dos Jardins e resolve mudar-se para bairros modernos e promissores. Uma prova desta tendência é a loja Daslu, com os seus 20.000 m2 de luxo absoluto, um "shopping-bunker" que migrou em 2005 do bairro de Vila Nova da Conceição para o vasto estaleiro do futuro núcleo de urbanismo futurista próximo da marginal Pinheiros, uma espécie de auto-estrada urbana que acompanha o rio, ultra poluído, do mesmo nome. Uma espécie de quadrado com colunas inspiradas na Grécia antiga que custou 50 milhões de dólares (...), a Daslu acolhe seus clientes privilegiados com fausto. Condutores trajando fraque e boné branco e preto, simpáticas e prestáveis empregadas de avental bordado, vendedoras "manequins" que vestem a marca da casa. Pode encontrar-se de tudo na Daslu: malas Vuitton, calças Dolce & Gabbana, sapatos Gucci, pulôveres Chanel, tudo importado. Perfumes, carros (Mini Cooper e Maserati), aparelhos de televisão de écran plasma, modelos de iates. Pode também chegar-se de helicóptero pelo telhado e refrescar-se no bar de champanhe projectado por David Collins, o arquitecto predilecto de Madonna.
"Do outro lado do rio Pinheiros, fica a favela do Coliseu, pobre entre as mais pobres, onde o rendimento mensal médio de um habitante não atinge sequer o preço do estacionamento [da Daslu]: 30 reais [cerca de 10 euros], uma tarifa que condiz com o padrão de riqueza da loja."
(Véronique Mortaigne, enviada especial a São Paulo, Le Monde)
*
E andamos nós a discutir os limites da liberdade de expressão, quando milhões de pessoas no mundo nem sequer conseguem exprimir uma palavra, de tanta fome que passam ou de tanta tareia que apanham...
(artigo reescrito em Português de Portugal, a partir do texto original que me foi endereçado, gentilmente, por correio electrónico, por um amigo brasileiro)

[163] The sound of silence

Estou a ouvir Simon & Garfunkel.
Que bom que seria que tantos, em tantos lugares, em tantas ocasiões, ouvissem o som do silêncio...

11 fevereiro 2006

[162] Late evening: pintura do mundo



Tiempos de silencio (luchadores por la paz y la guerra), S. Carbonell (http://www.uaq.mx/servicios/cultural/gvirtual/santiago/galeria_santiago.html)

[161] Cântico Negro

"Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por aí!"
(José Régio, Ed. Quasi, 1.ª ed., Famalicão: 2005)

[160] A Europa envergonhada...

O mesmo Governo do mesmo país que, em nome da separação do Estado e da Igreja, do laicismo republicano e da liberdade de culto, ordena a retirada de crucifixos das escolas públicas, através da sua Ministra da Educação, emite um comunicado, assinado pelo seu Ministro dos Negócios Estrangeiros, onde se apela ao respeito pelos símbolos do Islamismo e à manifestação contida da liberdade de expressão...
Mas, quando se visam outros símbolos (lembram-se do preservativo no nariz de S.S.?), tais manifestações são o expoente da civilização ocidental!
Aqui, como noutros campos, vinga a cobardia política e o relativismo moral. Depois, não se queixem que a História se repete!

08 fevereiro 2006

[159] Faith no more?


"Desagrada-me a forma gratuita como, por vezes, é ridicularizada a fé e ainda me desagrada mais a forma como isso, entre nós, se banalizou."
(Constança Cunha e Sá, O Espectro, 5-2-2006)

[158] Novos tempos, velhos erros...

"Não estamos muito longe do totalitarismo descrito por Hannah Arendt - um totalitarismo não político, mas não menos destruidor, a longo prazo.
"Em Portugal vive-se numa situação particular, de transição das sociedades «disciplinares» para as de controlo, cada vez mais apanhada pela rede geral da globalização."
(José Gil, Portugal Hoje - O Medo de Existir, Relógio de Água, Lisboa:2005)

06 fevereiro 2006

[157] Palavras leva-as o vento...

«José Sócrates mostrou uma vez mais que foi infeliz na escolha - tal como já tinha acontecido com muitas das que fez nas autárquicas - e desastrado na gestão do processo. Voltou com a palavra atrás e acabou penalizado por essa atitude. A palavra não pode ser uma coisa vã ou mutável, e quando a damos temos de mantê-la, mesmo que isso nos prejudique. É a isso que se chama palavra de honra, a que nunca se muda quando se dá, custe o que custar. »
(António Esteves, Entre Vistas, 25-1-2006)

05 fevereiro 2006

[156] Luz dominical: "O sol nas noites e o luar nos dias"

"De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem."
(Natália Correia)

[155] Early afternoon: lembranças


Para não nos esquecermos da alegria que cerca de 14 milhões de adeptos, em todo o mundo, tiveram em Maio passado... Não é uma semana desastrada que vai apagar tal lembrança!

[154] Domingo de manhã: a emoção de um encontro virtual

«a formiga disse à cigarra que o frio haveria de passar. a cigarra, esfaimada, não podia cantar nem imaginar que coisa teria na cabeça durante o verão já tão longínquo. a formiga, sorrindo, convidou-a a entrar na sua toca e deu-lhe de comer. depois, recebeu da cigarra a mais infinita amizade e as melhores aulas de canto e dança. juntas, sentiram-se perfeitas e nada mais lhes haveria de faltar a vida inteira»
(valter hugo mãe, casadeosso)
*
O mundo não está perdido! Ainda há formiguinhas e cigarras suficientes para ensolarar esta vida... Obrigado, valter.

03 fevereiro 2006

[153] Um líder para Portugal. Ou dois?

« (...) o papel da dupla liderança na eficácia das organizações. O conceito tem sido referido sobretudo a propósito da necessidade de as organizações serem conduzidas por duas personalidades: uma exercendo o papel de líder e outra o de gestor. A tese não é consensual, mas os argumentos são plausíveis. Para a sua compreensão, (...) pontos a destacar:

- A liderança e a gestão são processos distintos. A liderança é mais visionária, orientada para a mudança, emocional, criativa, inspiradora, inovadora, intuitiva. A gestão é mais conservadora, racional, analítica, "calculista", eficiente, imitadora, orientada para a gestão das infra-estruturas organizacionais e para a implementação da visão articulada pelo líder.

- Dois argumentos podem sustentar a tese da incompatibilidade. Um considera que a liderança e a gestão requerem características de personalidade distintas (ou se é líder ou se é gestor!). Portanto, há que dispor de um líder e de um gestor, cada um com o seu perfil. O outro argumento aduz que os dois papéis não podem ser exercidos pela mesma pessoa simultaneamente, sob pena de os colaboradores reagirem negativamente a alguém que actua de modo "duplo" e pratica o "compromisso maquiavélico".
«(...) De qualquer modo, perante o debate, duas afirmações podem ser feitas com bastante segurança. Primeira: a gestão é mais relevante nas base da hierarquia e em momentos de estabilidade. A liderança é mais pertinente para o topo da hierarquia e tempos turbulentos. Segunda: as organizações necessitam de possuir e promover ambas as competências. Com boa gestão, mas sem liderança, a organização terá presente, mas incorre no risco de não alcançar o futuro (ou de "morrer podre de rica"). Com liderança visionária, mas sem boa gestão, a organização poderá vislumbrar um excelente futuro - mas não conseguirá alcançá-lo.
«Finalmente, duas perguntas provocatórias: (1) será por estas razões que se argumenta que os eleitores não gostam de colocar todos os "ovos no mesmo cesto"?; (2) será Portugal mais bem gerido quando a Presidência e o Executivo asseguram devidamente as funções de liderança e de gestão?»
(Arménio Rego, DN, 3-2-2006)

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